A Crack in the Warmth
O vapor da água fervente subia em colunas densas, embaçando os azulejos descascados da cozinha. Clara ajustou o peso do corpo sobre os pés descalços, sentindo o piso frio contra a pele. À sua frente, a massa de fermentação natural repousava, uma bolha de vida que ela massageava com a urgência de quem tentava, através daquele gesto, manter a sanidade intacta. A contagem regressiva pulsava em sua mente como um metrônomo: dez dias para salvar a Casa de Chá ou assistir à sua demolição.
— O cheiro está quase como o dela — a voz de Dona Lúcia surgiu na porta, seca e carregada de uma familiaridade incômoda. A vizinha observava Clara com olhos que pareciam pesar cada grama de farinha utilizada. — Mas a Elvira nunca deixava a massa descansar tanto tempo no verão. Ela sabia que o calor de Garopaba acelera o caos.
Clara parou as mãos. O pão era sua única âncora.
— Eu estou seguindo as anotações do livro, Dona Lúcia. Mas as páginas… elas param de fazer sentido no último trimestre — respondeu Clara, evitando o olhar da mulher. Ela puxou o diário surrado da prateleira, onde os números da dívida de 180 mil reais pareciam saltar da página. — A tia Elvira não era de cometer erros contábeis. Isso aqui não é apenas má gestão. Foi extorsão, não foi?
Dona Lúcia hesitou, seus dedos roçando o batente da porta. — Elvira recebia visitas. Homens que não vinham pelo chá. Homens que traziam o medo embrulhado em pastas de couro. Ela tentou pagar, Clara. Mas o preço subia a cada mês.
O som de pneus cascalhados no pátio interrompeu a confissão. Um
Preview ends here. Subscribe to continue.