The Place of Refuge
Clara desceu do ônibus com o gosto de metal na boca, o mesmo resíduo de noites em claro revisando contratos que ninguém lia. O ar de Garopaba era salgado, cortante, carregando o peso de uma promessa que ela não queria cumprir. Quinze horas de viagem e uma única mensagem da advogada, disparada como um tiro: a Casa de Chá das Ervas estava condenada. Quinze dias para a regularização ou a demolição seria inevitável.
O portão de ferro, coberto por uma ferrugem que parecia sangue seco, gemeu ao ceder. O pátio interno, outrora o coração da vida de sua tia Elvira, era agora um cemitério de lajotas rachadas e trepadeiras mortas. O cheiro era inconfundível: mofo, madeira úmida e o espectro de erva-cidreira que ninguém colhia há meses. No centro, a mesa de madeira comprida, onde a tia servia os pescadores e as mães do bairro, estava com uma perna calçada por um tijolo.
Clara deixou a mala cair. O baque surdo no chão molhado ecoou, solitário. Ela não veio para salvar nada; veio para enterrar o que restava. Mas, ao caminhar até a porta principal, viu o aviso: Notificação de Embargo Municipal. O papel, protegido por um plástico, brilhava sob a luz do fim de tarde. Quinze dias. O prazo não era uma sugestão; era um cronômetro.
Ela encostou a testa na madeira inchada da porta. O cansaço era um peso físico, uma âncora puxando-a para baixo. Sem pensar, movida por uma memória muscular que ela tentou suprimir durante anos, Clara caminhou até o fogareiro a lenha no canto do pátio. Estava sujo, mas intacto. Havia lenha seca na caixa de madeira. Com mãos trêmulas, ela acendeu o fogo. O calor, quando surgiu, foi a primeira coisa real que sentiu desde que saíra de São Paulo.
Enquanto a água fervia na chaleira amassada, ela abriu a bolsinha de ervas que trouxera. Capim-limão. O aroma subiu, quente e limpo, cortando o cheiro de abandono. Ela serviu o chá em uma caneca lascada. Ao tomar o primeiro gole, a língua queimou, e ela sorriu — um sorriso amargo, mas genuíno. O
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