Chapter 6
O cronômetro no visor do Ferrugem não era apenas um contador; era um carrasco. 11:42:10. Vermelho, pulsante, implacável. Kael sentiu o gosto de cobre na boca enquanto o chassi do mech gemia, uma sinfonia de metal retorcido e hidráulica moribunda. O braço esquerdo, agora uma carcaça inútil de pistões travados, arrastava-se pelo solo da arena como um peso morto. Ele vencera a quarta rodada, mas a vitória tinha o sabor de cinzas.
— Kael, saia daí. Agora — a voz de Mestre Vane estalou no comunicador, carregada de estática e urgência. — O ranking atualizou. Você subiu dez posições. Os cobradores da Academia não vão esperar você chegar ao hangar. Eles já estão no túnel do Setor 7.
Kael não respondeu. Ele forçou o Ferrugem a girar sobre o eixo direito, ignorando o grito agudo do motor sobrecarregado. O injetor de sobrecarga, instalado por Vane, vibrava contra sua espinha, uma agulha quente de energia instável. Ele ativou o Injetor de Assinatura Invertida. O cockpit tremeu violentamente; a manobra proibida forçou o reator a um padrão caótico, mascarando sua assinatura térmica ao custo de uma drenagem severa em seus próprios nervos.
Ele deslizou pelas sombras do setor de sucata, mas a vitória fora um erro estratégico: ele era visível demais agora. Ao encontrar Vane na oficina clandestina, o velho mecânico nem se virou, focado nas entranhas de um frame de elite.
— Você está ficando lento, Kael — Vane disse, sem desviar o olhar. — Dez posições a mais significam dez vezes mais olhos sobre você. O alvo nas suas costas brilha mais que o reator do seu frame.
Kael chocou o punho contra a bancada. — Preciso daquela articulação hidráulica. O braço está morto.
Vane girou, os olhos cinzentos analisando o desespero do rapaz. — Isso custa mais do que você acumulou. Mas podemos fazer um acordo. O sistema de controle de danos do seu núcleo tem dados brutos da técnica proibida. Se você me der acesso total para extrair o log da assinatura invertida, eu conserto o braço.
Kael hesitou. Entregar os logs era dar a Vane o controle sobre sua vantagem tática, mas a alternativa era a falência. Ele assentiu, sentindo o peso da dívida e a instabilidade mental da técnica. Antes que pudesse respirar, Sora surgiu na área de inspeção. Ela não usava traje de pilotagem; sua presença era uma imposição de status, um contraste cruel com o macacão manchado de Kael. Ela parou diante do braço paralisado do Ferrugem, escaneando os sensores com precisão cirúrgica.
— A assinatura de energia é inconsistente, Kael — ela disse, a voz desprovida de calor. — Você está forçando um frame de sucata além do limite. O que você está escondendo?
Kael bloqueou o acesso com o corpo. Ele sabia que, se ela acessasse os logs, a técnica seria exposta, garantindo sua execução social. Ele desafiou a arrogância de Sora, transformando a inspeção em um debate público sobre o mérito dos sucateiros, forçando-a a recuar. Ela se afastou, mas o olhar que lançou para ele era de uma obsessão fria.
Mal o ar esfriou, o alerta de convocação soou. A interface neural de Kael vibrou com uma falha elétrica. — Arena 4. Agora. — A voz de Vane ecoou, gélida. Ao chegar à arena, o sistema de pareamento piscou em um vermelho berrante. Não era um oponente comum. O Vulto, um titã de cromo impecável, aguardava no centro. O sistema fora manipulado. O Goliath disparou um pulso eletromagnético preciso que atingiu a articulação danificada do Ferrugem. O braço esquerdo travou, faíscas saltando de cabos expostos. Kael estava preso em uma execução pública, e o cronômetro da dívida, agora com menos de 12 horas, contava os segundos para o seu fim.