Chapter 5
O visor do Ferrugem projetava o tempo restante em um vermelho pulsante: 17:42:03. Cada segundo era um golpe de martelo na bigorna da dívida de Kael. Na oficina de Mestre Vane, o ar cheirava a ozônio e desespero. Kael estava sob a carcaça, com os dedos enfiados na fiação exposta do braço esquerdo, tentando estabilizar o atuador experimental que Vane instalara em sua coluna.
— Se você não parar de tremer, a sobrecarga vai fritar seus nervos antes mesmo da arena — a voz de Vane soou seca, vinda do terminal de diagnóstico. — O Injetor de Assinatura Invertida está drenando a energia do núcleo. Se a vedação falhar, a Academia não vai apenas confiscar o frame; eles vão apagar você.
Um estrondo metálico ecoou na entrada. Não era o toque de um cliente, mas a cadência pesada de botas de combate. Agentes de cobrança corporativa. Kael sentiu o choque estático do injetor percorrer seu braço, um aviso de que a máquina estava faminta.
Sora entrou sem ser convidada, ladeada por dois técnicos de inspeção. Ela não olhou para Kael, mas para o Ferrugem, como se inspecionasse uma praga em um jardim impecável.
— O "sucateiro" que desafia a gravidade — ela disse, a voz destilando um desdém gélido. — Meus sensores registraram picos de energia impossíveis na última rodada. Assinaturas proibidas, Kael. Vamos ver o que você esconde sob essa ferrugem.
Kael posicionou-se entre Sora e o ombro esquerdo do frame. O injetor pulsava sob a blindagem, um segredo que pesava mais que a dívida. Ele forçou um sorriso, sentindo o atuador injetar uma dose de adrenalina sintética em seu sistema nervoso.
— É um frame velho, Sora. Ruído de estática é o que você chama de anomalia.
Ela se aproximou, o scanner em sua mão emitindo um brilho azulado que parecia queimar a carcaça. Kael ativou o injetor de sobrecarga. O Ferrugem vibrou, um som gutural de metal estressado. A assinatura energética distorceu, emitindo uma frequência caótica que sobrecarregou os sensores dos técnicos. O scanner de Sora chiou, exibindo um erro crítico.
— Falha de leitura — um dos técnicos murmurou. Sora encarou Kael, a mandíbula tensa. Ela sabia que ele escondia algo, mas o custo era visível: o braço esquerdo do Ferrugem soltou uma faísca e paralisou, a articulação travada pelo esforço.
— Você é uma anomalia, Kael — ela sussurrou, passando por ele. — Mas anomalias são feitas para serem corrigidas. A próxima falha será a última.
Assim que ela saiu, o comunicador de Kael explodiu em estática. Era Vane.
— A Academia acelerou o cronograma. A quarta rodada é agora. Eles não querem que você vença.
Kael subiu no cockpit. O cronômetro marcava 11:42:03. O braço esquerdo estava morto, uma massa de metal inútil. Ele avançou para a arena. O oponente, um piloto de elite em um frame de classe média, disparou um pulso de contenção, encurralando Kael contra a parede de energia.
Kael ignorou os avisos de fadiga e ativou a sobrecarga total. O Ferrugem soltou um grito metálico; o braço paralisado forçou-se além do limite estrutural, as juntas rangendo até romperem. Com um movimento brutal, ele desferiu um golpe que ignorou a blindagem do oponente, rasgando o chassi inimigo.
O silêncio na arena foi absoluto. O Ferrugem parou, fumegando. Kael observou o visor: seu ranking saltou dez posições. Mas, junto com a vitória, o sistema de dívidas enviou uma notificação vermelha: a Academia removeu as restrições de cobrança. Ele não era mais um competidor; era um ativo de alto valor. Cobradores de nível superior já cercavam as saídas da arena, prontos para coletar sua dívida com juros de sangue.