The Visible Gain
O chiado metálico de um atuador colapsando no convés do Hangar 7 soou como uma sentença de morte. Kael observou o braço esquerdo do Ferrugem — sua única ferramenta de sobrevivência — pender inútil, os cabos de fibra óptica faiscando como nervos expostos sob a carcaça de metal retorcido. A vitória na arena, conquistada há poucos minutos, era agora um erro de cálculo caro demais. No visor interno do cockpit, o relógio da dívida brilhava em um vermelho agressivo: 23:42:15 restantes.
— O Injetor de Assinatura Invertida funcionou — disse Mestre Vane, emergindo das sombras do hangar com as mãos manchadas de graxa. Ele chutou uma placa de metal solta, o som ecoando pelas paredes vazias. — Mas a estrutura não aguenta. Você forçou o metal além do ponto de fadiga, Kael. Esse braço é sucata. Se não estiver operacional para a próxima bateria, você não perde apenas o frame; é varrido da Metrópole Orbital como lixo industrial.
Kael desceu da cabine, o corpo latejando de exaustão. Ele não precisava de lições de moral; precisava de peças. O mercado do Setor 7 era implacável, e a desigualdade ali era medida em milímetros de espessura de blindagem. Ele caminhou até o centro do mercado, onde a disparidade social era física: de um lado, pilotos da Academia com seus frames imaculados; do outro, Kael, o sucateiro que ousara vencer.
— Isso é lixo, Kael. Nem para fundição serve — zombou o mercador, cujos olhos eram lentes de aumento cibernéticas. — Você quer peças de alta densidade com crédito de fracassado? A Escada de Provas não aceita promessas como moeda.
Kael sentiu o calor do orgulho ferido colidindo com a necessidade brutal. Ele sabia que sua reputação de 'sucateiro' era um ativo.
— Aposte contra mim na próxima rodada — Kael propôs, a voz firme. — Se eu vencer com este 'lixo', você me dá as peças. Se eu perder, o Ferrugem é seu.
O mercador sorriu, vendo a chance de lucrar sobre a destruição de um frame. O acordo estava selado, mas o risco de destruição total agora era o preço de seu próximo movimento.
De volta ao hangar, Kael tentava forçar um acoplador reciclado quando sentiu a vibração de botas de polímero de alta densidade no piso de grade. Sora apareceu na penumbra. Sua silhueta impecável contrastava violentamente com a sujeira industrial. Ela não olhou para Vane; seus olhos, frios como sensores infravermelhos, estavam fixos no chassi torto do Ferrugem.
— A técnica de inversão de assinatura que você usou — Sora começou, sem rodeios. — Foi ineficiente. Mas curiosa. A Academia já está monitorando sua assinatura estranha, Kael. Eles não gostam de anomalias que não podem controlar.
Ela deixou o aviso pairando no ar: a próxima luta não seria apenas contra um oponente, mas contra a própria burocracia que queria desqualificá-lo. Quando ela partiu, o relógio no visor do pulso de Kael marcou 18:42:03.
Na arena, horas depois, o Ferrugem era uma massa de trepidação. O Vanguard-5 de seu oponente deslizava com uma fluidez insultante.
— Vamos ver quanto tempo essa sucata aguenta, catador — a voz do oponente ecoou pelo canal aberto.
Kael não respondeu. Ele sentia a vibração irregular no braço esquerdo, o remendo improvisado emitindo um som de agonia a cada movimento. Ele acionou o Injetor de Assinatura Invertida. O brilho do Ferrugem oscilou, tornando-se uma mancha borrada nos sensores do oponente. Kael avançou, ignorando o alarme de falha crítica no sistema de refrigeração. Ele desferiu um golpe brutal, sacrificando a integridade estrutural do braço esquerdo para abrir a guarda do Vanguard. O impacto foi seco, o metal do Ferrugem cedendo sob a pressão. O oponente caiu, mas o braço de Kael estava, enfim, destruído.
Ele venceu, garantindo os créditos, mas o Ferrugem estava agora inutilizado. Enquanto a multidão rugia, Kael viu Sora na arquibancada superior, observando-o com um olhar que não era de admiração, mas de quem acabara de encontrar um novo alvo para caçar.