O Silêncio da Tia Lurdes
O ar em Marechal Hermes não era apenas quente; era pesado, saturado com o cheiro de asfalto cozido e a umidade que subia dos bueiros. Minhas mãos tremiam enquanto eu trancava a porta da casa de Tia Lurdes. O relicário, pesado demais para o seu tamanho, parecia queimar através do tecido da minha jaqueta. Cinco dias e quatorze horas. O cronômetro do Feed não era uma metáfora; era uma sentença de morte que eu carregava no bolso.
Lurdes estava na cozinha, a luz da lâmpada nua sobre a mesa de fórmica criando sombras profundas em seu rosto. Ela não perguntou como eu entrei ou por que eu estava coberto pela poeira do arquivo 402. Ela apenas observava a minha mão, que ainda apertava a lista de pacientes fantasmas.
— Você trouxe o que não deveria, Lucas — disse ela, a voz baixa, sem o tom de surpresa que eu esperava. — Sua mãe me fez jurar que esse metal nunca veria a luz do dia. Ela sabia que o silêncio era a única coisa que nos mantinha vivos.
Joguei o documento sobre a mesa. O papel, impresso às pressas na impressora térmica do hospital, estava úmido de suor.
— Meu pai não era um administrador, Lurdes. Ele era um carrasco. A lista prova que ele autorizava o descarte de pacientes vivos para abrir leitos. E o nome dela… por que minha mãe assinava as ordens de óbito? — Minha voz falhou, o peso da revelação atingindo meu estômago como um soco. — Ela era cúmplice ou vítima?
Lurdes se aproximou, mas não tocou no papel. Seus olhos, marcados por décadas de segredos, encontraram os meus com uma clareza que me apavorou.
— Ele não guardava relíquias, Lucas. Ele colecionava recibos. Cada vida apagada, cada paciente fantasma, era uma chave gravada nesse objeto. O relicário é a prova de que ele era intocável, e agora, você é o dono dessa prova. Você não herdou uma memória; você herdou um alvo.
Antes que eu pudesse responder, um zumbido agudo, mecânico, cortou o silêncio da casa. O som de hélices de alta rotação. Um drone. Ele circulava o telhado com a precisão de um predador. A luz vermelha de gravação varreu a sala através da fresta da cortina, iluminando as fotos de família na parede como se estivesse catalogando cada um de nós para o abate.
— O Feed — sussurrei, o pânico subindo pela garganta. — Eles nos rastrearam pelo relicário.
Lurdes não hesitou. Com uma agilidade que contradizia seus setenta anos, ela apagou a luz. O breu foi instantâneo, absoluto. Ela me puxou para o canto, longe das janelas, enquanto o drone lá fora emitia um estroboscópio frenético que transformava o interior da sala em uma sequência de flashes cegantes. A cada pulso, eu via o relicário sobre a mesa, brilhando como um objeto alienígena, um farol de culpa que eu não conseguia apagar.
— Eles não vieram pela lista, Lucas — ela sussurrou, sua respiração quente contra o meu ouvido enquanto o drone se ajustava, a câmera focando na fresta da cortina. — Eles vieram buscar a chave. Eles já sabem que você tem a chave.
O som do drone mudou de tom, um zumbido mais grave, indicando que a transmissão ao vivo estava começando. Eu sabia o que viria a seguir: meu rosto, o rosto de Helena, e a casa de Lurdes expostos para milhões de seguidores de Rafa Coutinho. O tempo estava acabando, e a verdade, pela qual eu tanto lutei, estava prestes a se tornar o combustível para o meu linchamento digital.