A Queda do Tubarão
O Salão de Leilões de Jade, antes um teatro de ostentação, transformara-se em uma câmara de execução pública. O tilintar das taças de cristal fora substituído pelo zumbido elétrico dos projetores que, em alta definição, escancaravam a contabilidade suja de Ricardo Gusmão. No centro do palco, Beatriz Lemos mantinha a coluna ereta, o olhar de aço fixo no magnata, enquanto o dossiê que Arthur lhe entregara desmantelava, página por página, a fachada de filantropo do Tubarão.
— As licitações não foram vencidas, foram compradas — a voz de Beatriz ecoou, fria e precisa, cortando o murmúrio dos investidores. — Cada contrato assinado sob o nome de Gusmão carrega o DNA da lavagem de dinheiro que sangrou esta cidade por uma década.
Ricardo Gusmão, o homem que até minutos atrás ditava o ritmo do mercado com um movimento de dedos, desmoronava. Sua face, antes rubicunda de poder, exibia uma palidez doentia. Ele tentou avançar em direção ao púlpito, mas foi contido por dois seguranças que, percebendo a mudança na maré de poder, hesitaram em seguir suas ordens. O status de Gusmão não estava apenas sendo questionado; estava sendo deletado em tempo real.
Arthur observava das sombras da lateral do salão, seus dedos roçando o coldre improvisado sob o paletó. Ele não precisava gritar; a verdade, exposta com a frieza de um cirurgião, era a arma mais poderosa. O vácuo de poder que ele criara era palpável, mas o barulho de passos ritmados atrás dele o fez girar. Um homem de terno impecável e luvas de couro bloqueava a saída.
— Você abriu a caixa de Pandora, Arthur — a voz do emissário da Sombra era um sussurro letal. — Mas a Sombra não gosta de surpresas. Sua irmã ainda está na faculdade, não está? Seria uma pena se um acidente de trânsito interrompesse o semestre dela hoje à tarde. Pare a transmissão agora ou ela paga o preço.
Arthur não piscou. O ar ao seu redor pareceu esfriar, solidificando-se sob a pressão de sua aura contida. O emissário não percebeu que a armadilha estava armada para o lado errado.
— Ameaças? — Arthur deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal do homem. A diferença de altura e a presença esmagadora fizeram o emissário vacilar. — Você cometeu um erro básico: presumiu que eu ainda jogo pelas regras de vocês. Eu não sou um jogador, sou o tabuleiro.
Arthur sacou o celular, exibindo uma tela com o dossiê do político que protegia a Sombra. O emissário empalideceu, recuando enquanto as sirenes da polícia cortavam o silêncio do salão. A era de Gusmão chegara ao fim.
O pânico venceu o magnata. Ele empurrou dois convidados, derrubando uma vitrine de jade imperial que se estilhaçou como sua reputação, e correu em direção à saída de emergência lateral. Ele não esperava encontrar ninguém ali, mas Arthur Valente estava parado, bloqueando o corredor de serviço como uma muralha humana. Um guarda-costas tentou avançar com uma faca tática, mas Arthur moveu-se com a precisão de um predador, interceptando o punho do homem e enviando-o de encontro à parede com um impacto surdo.
Gusmão estacou, o terno impecável de seda italiana agora amarrotado. Arthur surgiu diante dele, bloqueando o caminho com uma calma gélida que fez o magnata tremer. O homem que ditava o mercado buscava instintivamente uma arma, mas o movimento era lento, de quem já perdera a bússola.
— Você... — a voz de Gusmão saiu como um chiado. — Foi você. O tempo todo, o peso morto da família Valente. O que você quer, seu miserável?
Arthur inclinou-se, sussurrando perto do ouvido do homem que, até uma hora atrás, era o dono da cidade.
— O jogo acabou, Ricardo. Não sou o peso morto que você tentou enterrar. Sou a conta que finalmente chegou para cobrar o preço da sua arrogância. Lembre-se do meu nome quando a cela fechar.
Enquanto os oficiais avançavam com as algemas em punho, Arthur observou a cena com desapego. Gusmão fora arruinado, mas enquanto o magnata era arrastado, Arthur sentiu um arrepio na nuca. O vácuo de poder deixado por Gusmão não ficaria vazio; forças muito mais antigas e perigosas já se moviam nas sombras, e ele sabia, com uma clareza cortante, que o verdadeiro alvo agora era ele.