O Jogo de Poder
O ar no escritório de Ricardo Gusmão tinha o gosto metálico de uma derrota iminente. O alarme de segurança, um uivo ininterrupto que cortava o silêncio do andar, era o som da autoridade de Gusmão se desfazendo. O magnata estava sentado atrás de sua mesa de mogno, os dedos entrelaçados, observando Arthur com uma calma que beirava o delírio.
— Você acha que esse dossiê é um passe livre, Valente? — Gusmão perguntou, a voz baixa, quase um sussurro. — Você é um ex-presidiário. Ninguém vai acreditar em um pária contra o homem que sustenta esta cidade. A Sombra não perdoa quem tenta jogar o jogo deles.
Arthur não respondeu com palavras. Ele não tinha tempo para o teatro de Gusmão. O estrondo da porta sendo arrombada pelos seguranças veio como uma confirmação de que o cerco estava fechado. Arthur agiu com a precisão de quem já havia enfrentado exércitos, não apenas capangas de aluguel. Ele chutou a mesa de centro contra o primeiro homem, usando o impacto para desequilibrar o segundo. Em um movimento fluido, ele imobilizou o líder da segurança, usando-o como escudo contra os disparos que, por sorte, não vieram — os homens temiam atingir o patrão.
— O jogo mudou, Ricardo — Arthur disse, soltando o homem e caminhando em direção à saída, ignorando a arma apontada para suas costas. — O dossiê já está com Beatriz. O leilão não é mais sobre jade. É sobre a sua queda.
Arthur saiu do escritório enquanto o caos se instalava. Ele não olhou para trás. O corredor estava vazio, mas ele sentia o peso dos olhos invisíveis da Sombra. Ele precisava chegar ao salão antes que o tempo se esgotasse.
No Salão de Licitações, a atmosfera era elétrica. Beatriz Lemos estava no púlpito, o dossiê aberto diante dela como uma sentença. O projetor exibia, em letras garrafais, as contas fantasmas de Gusmão. O silêncio da plateia era absoluto, um vácuo de choque que precedia a destruição de um império.
— Senhores — a voz de Beatriz ecoou, firme e cortante. — A licitação de hoje foi construída sobre uma base de mentiras. O jade imperial é uma farsa, e o capital que sustenta este leilão é fruto de lavagem de dinheiro.
Arthur entrou no salão pelos fundos, observando o momento exato em que a ficha caiu para os investidores. Gusmão, que acabara de chegar ao salão, viu sua reputação ser estilhaçada em tempo real. Desesperado para manter a fachada, ele subiu ao palco, tentando elevar o lance da licitação a um valor absurdo, uma tentativa patética de comprar o silêncio do mercado.
— Eu dobro a oferta! — Gusmão gritou, o rosto desfigurado pela fúria. — Quem se atreve a questionar minha autoridade?
O silêncio que se seguiu foi a resposta. Ninguém acompanhou o lance. Gusmão havia vencido a licitação, mas o custo proibitivo, somado à exposição pública de suas fraudes, selou sua ruína financeira. Ele estava sozinho no palco, um rei sem coroa.
Arthur caminhou até o centro do salão, bloqueando a rota de fuga de Gusmão. O magnata estacou, o terror finalmente substituindo a arrogância.
— Você perdeu tudo, Ricardo — Arthur sussurrou, tão baixo que apenas o magnata pôde ouvir. — E o pior: você perdeu porque acreditou que a hierarquia desta cidade era imutável. Eu sou o homem que você tentou apagar, e agora, sou o homem que dita as regras.
As sirenes da polícia, antes distantes, agora rugiam na porta do salão. O jogo de poder havia terminado, mas a guerra estava apenas começando.