Oxe, o Leão Acordou
O escritório de Moreira não cheirava a jade, mas a desespero e verniz barato. Ricardo Sampaio estava parado diante da mesa de mogno, o rosto impassível, enquanto dois seguranças bloqueavam a porta. Arthur Vale, por outro lado, parecia o único homem na sala que não estava suando.
— Moreira — a voz de Sampaio era um comando de seda — destrua esse laudo agora. E depois, garanta que o Sr. Vale tenha uma saída, digamos, menos convencional deste prédio.
Moreira, o leiloeiro cujas mãos tremiam sobre a pasta, hesitou. O laudo geológico original da peça 42 — a prova definitiva de que o jade era uma falsificação sintética injetada com resina — estava a poucos centímetros de distância. Arthur não gritou. Ele nem sequer mudou a postura. Com um movimento lento, retirou o celular do bolso e colocou-o sobre a mesa. A tela brilhava com um comprovante de envio: um e-mail endereçado à Receita Federal e aos principais portais de notícias econômicas da cidade. O assunto era curto: "Fraude em Licitação e Manipulação de Leilão: Provas Documentais".
— O arquivo que você quer destruir, Ricardo, é apenas uma cópia — disse Arthur, a voz cortante como lâmina fria. — A original já está sendo processada pelos servidores da Receita. Se essa sala for aberta com qualquer sinal de violência, ou se Moreira tentar queimar o laudo, o sistema dispara o restante do pacote. Você não está apenas comprando uma briga, está assinando sua própria sentença criminal.
Sampaio empalideceu. O controle do leilão estava escapando. Arthur não lhe deu tempo para reagir; exigiu a presença imediata de todos na sala de assinatura principal. Não era um pedido, era uma intimação.
Minutos depois, na sala VIP, a atmosfera era de um vácuo súbito. Sampaio mantinha a mão espalmada sobre o contrato de fusão, os dedos brancos de força. Beatriz Alencar, pálida, observava a cena. Arthur deslizou a pasta parda sobre o mogno. O som do papel contra o verniz soou como um tiro.
— O leiloeiro Moreira cometeu um erro de cálculo, Sampaio — declarou Arthur, sua voz sem oscilações. — Ele assinou o laudo original da peça 42 antes de ser coagido a emitir a versão adulterada que você exibe agora. O documento contém a assinatura original, o selo de autenticidade e a prova do conluio.
Sampaio tentou rir, mas o som morreu quando viu o selo oficial do instituto geológico no topo do documento. Arthur, ignorando os seguranças, apontou para a cláusula 4.2 do contrato de fusão.
— Esta cláusula não apenas garante a fusão, ela detalha a responsabilidade criminal sobre os ativos leiloados. Ao fraudar a peça 42, você violou os termos que você mesmo escreveu. O contrato é nulo. A empresa Alencar permanece com Beatriz.
O silêncio na sala tornou-se absoluto. Os magnatas presentes, antes submissos a Sampaio, começaram a se afastar fisicamente, como se a proximidade com ele fosse contagiosa. Beatriz, com a voz subitamente firme, anunciou que acionaria a justiça por estelionato. Sampaio ficou isolado, o rosto contorcido pela derrota pública.
Enquanto Sampaio se retirava humilhado em direção ao elevador privativo, um homem de idade avançada, vestindo um terno cinza sem ostentação, destacou-se das sombras. Ele parou diante de Arthur e estendeu um cartão de visita em papel fosco, apenas com um brasão discreto em relevo.
— O senhor Vale, imagino — a voz do velho era um sussurro áspero. — Sampaio é um peão barulhento. Ele sempre esquece que, neste tabuleiro, a peça de jade é apenas o começo. O jogo real acontece em andares que você ainda não visitou.
Arthur aceitou o cartão sem hesitar, mantendo a expressão neutra. Beatriz o alcançou, os olhos brilhando com uma dúvida nova.
— Quem é você, afinal? — perguntou ela.
Arthur respondeu com um leve sorriso: — Alguém que ainda não terminou de cobrar.
Ele olhou para a cidade através da janela de vidro temperado, sabendo que, lá fora, os verdadeiros donos daquele tabuleiro já haviam notado sua jogada.