O Preço da Insolvência
O martelo do leiloeiro Moreira ainda vibrava sobre a mesa de mogno, um som seco que selava a ruína dos Alencar. Ricardo Sampaio não perdeu tempo. Ele deslizou uma pasta de couro sobre o veludo escuro, o gesto carregado de uma autoridade que ele não possuía por mérito, mas por conluio.
— Assine, Beatriz. A Alencar não tem mais ativos para cobrir o rombo desta arremate. A fusão é sua única tábua de salvação, ou o tribunal decreta sua falência pessoal amanhã ao amanhecer.
Beatriz sentiu o sangue fugir do rosto. A construtora, o legado de três gerações, estava sendo reduzida a um parágrafo de rendição. Ela travou o maxilar, forçando um desdém que sua situação financeira não permitia.
— Isso é um assalto, Ricardo. Você arquitetou essa queda de preços com licitações viciadas. Preciso de quarenta e oito horas para auditar as contas.
— Você tem trinta segundos — Sampaio respondeu, ajeitando as abotoaduras de ouro com uma lentidão insultuosa. — O mercado não espera por herdeiras desesperadas que dependem de favores.
A porta de metal rangeu. Arthur Vale entrou, o passo firme, alheio à tensão que oprimia o ambiente. Sampaio virou-se, os olhos estreitos de desprezo ao ver o pária.
— Você se perdeu, Arthur? — Sampaio soltou uma risada seca. — Este é um setor exclusivo para quem ainda tem relevância. O lixo da família Vale não tem lugar aqui.
Arthur não respondeu. Ele caminhou até a mesa e pousou a mão sobre o contrato. A pressão de seus dedos sobre o papel foi mínima, mas Beatriz viu Sampaio vacilar por um milésimo de segundo. Arthur lia o documento com a precisão de um cirurgião examinando uma ferida aberta.
— A cláusula 4.2 prevê uma multa por atraso na entrega da licitação do viaduto leste — Arthur comentou, a voz desprovida de hesitação. — Curioso. O edital original exigia aço de alta resistência, mas o aditivo que você forçou o conselho a aprovar na semana passada exige um composto que nem sequer atende às normas de segurança. Se este contrato for assinado, a responsabilidade civil recairá sobre o assinante, não sobre o acionista majoritário. Você não está comprando a empresa, Sampaio. Você está comprando uma condenação criminal para a Beatriz.
O silêncio na sala tornou-se denso. Sampaio empalideceu, a máscara de magnata benevolente rachando sob a precisão técnica. Ele não esperava que o ex-soldado conhecesse os detalhes ocultos de suas manobras.
Arthur não esperou pela resposta. Ele deixou Sampaio fervendo de raiva e dirigiu-se aos arquivos de Moreira. O leiloeiro, um homem de papada flácida, tentou esconder uma pasta de couro sob a mesa. Arthur atravessou a sala em dois passos e pressionou o pulso do leiloeiro contra a madeira. Não era força bruta; era o domínio de quem conhecia exatamente onde a dor se tornava uma linguagem universal.
— O certificado de autenticidade da peça 42 — Arthur ordenou. — O laudo geológico original. Não a cópia adulterada que você apresentou no palco.
— Você não tem autorização, Vale! O senhor Sampaio… — Moreira gaguejou, a mão trêmula alcançando o telefone.
Arthur interceptou o movimento. O olhar de Arthur era frio, um resquício de sua vida como Deus da Guerra agora contido sob a capa de um homem comum. O medo no rosto de Moreira foi o sinal de que a armadilha estava armada. O leiloeiro entregou o documento, sabendo que, se o conteúdo fosse exposto, sua carreira acabaria ali mesmo.
De volta aos corredores, a atmosfera mudou. A porta do escritório foi arrombada com um estrondo. Sampaio entrou, ladeado por dois brutamontes de terno barato, os olhos injetados de ódio.
— O prazo acabou, Beatriz — Sampaio rosnou, ignorando Arthur. — Assine a transferência ou o prédio vai abaixo hoje.
Arthur, encostado na parede, bloqueou o caminho entre Sampaio e Beatriz. Ele não se moveu, mas sua presença preencheu o ambiente como uma pressão atmosférica insuportável.
— Você está no lugar errado, Sampaio — Arthur disse, a voz letalmente calma.
Sampaio riu, um som seco e desprovido de humor. Ele gesticulou para os seguranças.
— Tirem esse lixo da minha frente. Quebrem os dedos dele se for preciso. Eu vou acabar com o que sobrou da dignidade dessa família aqui e agora.
Arthur sorriu. Era o sorriso de quem via o xadrez completo enquanto o oponente mal enxergava o tabuleiro. Ele não recuou um milímetro enquanto os brutamontes avançavam. Sampaio, em sua arrogância cega, ainda não compreendia que, ao ameaçar a segurança física de Arthur, ele acabara de assinar a sua própria sentença de ruína pública.