A Exposição da Elite
As luzes do salão principal da Galeria Beatriz mal iluminavam as fileiras de cadeiras agora vazias. O eco do último martelo ainda pairava, mas a multidão já havia se dispersado — alguns correndo para os carros, outros já enviando mensagens que fariam o noticiário da madrugada pegar fogo. Arthur permaneceu no centro do tablado, mãos nos bolsos, costas retas. Não comemorava. Observava.
Beatriz atravessou o salão vazio, os saltos ecoando como contagem regressiva. Parou a dois metros dele.
— Quarenta e sete minutos até o cartório fechar a portaria noturna — disse ela, voz rouca de tanto bater martelo. — Já recebi três ligações “anônimas” pedindo para travar qualquer registro do Edifício Horizonte. Eles querem ganhar tempo.
Arthur não respondeu de imediato. Seus olhos encontraram Fernando Salazar e Gustavo Halter ainda sentados na terceira fileira, rostos cinzentos, sussurrando como ratos que acabaram de descobrir que o navio realmente afundou.
— Chame os dois — ordenou, tom neutro.
Beatriz fez um gesto curto para o segurança na porta. Minutos depois, os ex-sócios subiram ao tablado, hesitantes. Salazar suava apesar do ar-condicionado. Halter mantinha os olhos no chão.
Arthur puxou o celular do bolso interno, conectou-o ao projetor auxiliar que ainda estava ligado para o leilão. Uma imagem surgiu na tela branca: trechos selecionados da lista do microchip. Nomes. Valores. Datas. Contas numeradas em paraísos fiscais. E, no topo, três nomes que fizeram Salazar engolir em seco.
— Esses são os homens que realmente pagavam as contas de Ricardo — disse Arthur. — Não eram vocês. Eram eles. E agora sabem que vocês assinaram a declaração conjunta que incrimina Ricardo pela certidão falsificada. Se o cartório não registrar a nulidade hoje, a gravação dessa assinatura vai para a imprensa antes do amanhecer.
Salazar abriu a boca, fechou-a. Halter apenas assentiu uma vez, rápido.
— Assinem — disse Arthur. — Agora.
Eles assinaram a declaração conjunta ali mesmo, no tablet do cartório que Beatriz trouxe correndo. A ligação para o funcionário foi feita no viva-voz. A voz do outro lado tremia.
— Já está autenticando… a nulidade absoluta foi registrada. Escritura original prevalece. Parabéns.
Arthur desligou sem agradecer. A tela do projetor apagou. O silêncio voltou, mais pesado.
— Vocês estão limpos — disse ele aos dois. — Por enquanto. Sumam antes que os outros nomes da lista venham atrás de vocês também.
Os ex-sócios saíram sem olhar para trás.
Beatriz ficou parada, olhando para Arthur como se o visse pela primeira vez.
— Você tinha isso guardado o tempo todo.
— Tinha — respondeu ele. — Agora vamos para a sala de trás. Ainda não acabou.
A porta da sala privativa rangeu. Arthur estava junto à janela estreita que dava para o beco, o envelope lacrado ainda na mão. Beatriz sentou-se na ponta da poltrona, dedos entrelaçados com força.
Passos pesados no corredor. Botas de couro velho.
O homem entrou sem bater.
— Capitão.
Voz rouca, mas firme. Coronel Vargas. O mesmo tom que comandava pelotões em selvas onde o rádio morria e a morte não avisava.
Arthur virou-se devagar.
— Coronel. Não esperava visita tão cedo.
Vargas parou a três passos da mesa. Ombros retos, cabelo grisalho curto, coldre discreto sob o paletó.
— Observei do mezanino. Todo o salão viu Ricardo cair. Só eu vi você dar o último lance com dinheiro que ninguém rastreia.
Beatriz ergueu o rosto.
— Quem é esse homem, Arthur?
— Alguém que já comandou homens melhores que Ricardo — respondeu Vargas por ele. — E que sabe exatamente o que está no microchip que você recuperou.
Arthur inclinou a cabeça.
— Então sabe que enviei cópias criptografadas para três jornalistas e dois promotores antes mesmo do martelo cair.
Vargas sorriu de lado, sem calor.
— Sei. Por isso estou aqui. Trégua condicional. Você me entrega a lista completa. Eu garanto que ninguém toca em você por seis meses. Tempo suficiente para sair da cidade.
Arthur colocou o envelope sobre a mesa.
— Não.
Vargas ergueu uma sobrancelha.
— Recusando proteção?
— Recusando chantagem disfarçada de proteção. — Arthur empurrou o envelope de volta. — Já mandei o pacote completo. Amanhã a cidade acorda sabendo quem financiava Ricardo. E quem financiava os financiadores.
O coronel ficou em silêncio por longos segundos. Depois soltou o ar devagar.
— Eles vão vir atrás de você pessoalmente agora, Capitão. Não mais através de marionetes.
Ele virou-se para sair. Parou na porta.
— Você era bom na guerra. Mas isso aqui é outra coisa.
A porta fechou com clique suave.
Beatriz soltou o ar que prendia.
— Ele te conhece da guerra.
— Conhece — disse Arthur. — E sabe que eu não perco duas vezes.
Ele caminhou até a mesa de mogno do escritório principal. As luzes do salão lá embaixo já estavam apagadas. Apenas os abajures mantinham o ambiente vivo.
Beatriz ficou de pé atrás da mesa, dedos apertando a madeira.
— A chantagem sobre minha mãe… acabou?
— Acabou hoje à noite. Ricardo não tem mais crédito para pagar o capanga da hipoteca. O banco já recebeu a notificação de falência. Amanhã cedo a carta de quitação chega na casa dela.
Ela olhou para o envelope pardo entre eles — a escritura original do Edifício Horizonte.
— E em troca você quer a galeria.
— Não quero a galeria. — Arthur empurrou o envelope um centímetro na direção dela. — Quero a estrutura. Os contatos. O martelo. O endereço que todo mundo respeita. Você mantém o nome na fachada, cinquenta e um por cento do capital. Eu assumo direção operacional e segurança. Contrato de sociedade com cláusula de recompra futura. Quando os tubarões estiverem no fundo do rio, você exerce a opção e recompra tudo por um real.
Beatriz riu uma vez, seco.
— Você não confia em ninguém.
— Confio no que funciona — respondeu ele. — E isso funciona.
Ela pegou a caneta. Hesitou um segundo. Assinou.
— A galeria é sua para comandar. Mas o nome continua sendo Beatriz.
Arthur assentiu uma vez.
As luzes do corredor se apagaram uma a uma. O prédio inteiro mergulhava no silêncio.
Ele murmurou, quase para si mesmo:
— Eles não são mais Ricardo. São os homens que eu já derrotei uma vez.
Lá fora, na rua escura, um carro preto sem placa passou devagar. As janelas fumê não deixavam ver quem estava dentro.
Mas Arthur sabia.
Eles estavam vindo.