O Leilão do Juízo Final
A porta da sala privativa superior rangeu ao fechar, ecoando na quietude da galeria quase vazia. Beatriz permanecia junto à janela alta, braços cruzados com força, olhando a rua onde os últimos carros da reunião secreta de Ricardo desapareciam na noite. Arthur entrou sem pedir licença. Colocou sobre a mesa de mogno uma pasta preta fina, sem logotipo. Apenas o peso do papel grosso e o leve tilintar do pingente de jade no bolso interno do paletó.
— Acabou de sair da holding deles — disse ele, voz baixa e seca. — O copo estilhaçou na mão dele. Ameaçou o Coronel Otávio na frente de todos. Já era.
Beatriz virou-se devagar. Olhos vermelhos, não de choro, mas de quem segura o ar há horas.
— E agora? Eles vão atrás da minha mãe antes do prazo acabar. Você sabe que vão. A casa dela está no nome dela, mas o contrato de “empréstimo” que assinaram… Ricardo ainda tem a via original.
Arthur puxou a cadeira sem sentar. Ficou de pé, mãos apoiadas na borda da mesa, corpo inclinado o suficiente para que ela sentisse a gravidade da decisão.
— Por isso não temos mais tempo para esperar o cartório abrir amanhã. — Ele abriu a pasta. Dentro, uma única folha: convocação de leilão extraordinário de emergência, já com o timbre oficial da Galeria Beatriz, carimbada e assinada por dois oficiais de justiça. — Assine aqui. Como leiloeira oficial, você convoca. Se ele não comparecer, perde o controle total dos bens restantes por decisão automática de indisponibilidade.
Beatriz encarou o papel como se pudesse queimá-lo com o olhar.
— E se ele vier armado? Se mandar alguém pra calar a gente antes?
Arthur tirou o celular do bolso. Mostrou uma mensagem de texto curta, remetente oculto: “Confirmação recebida. Apoio financeiro liberado. Salazar, Halter e Menezes já alinhados. Aguardo sua ordem.”
— Eles não vão. Não mais. A lista que vazou do pingente acabou com a lealdade. O que sobrou é medo. Assine, Beatriz. É a única proteção que sua mãe tem agora.
Ela respirou fundo, pegou a caneta. A assinatura saiu firme, quase violenta. No mesmo instante, o celular dela tocou. Número bloqueado. Ela atendeu no viva-voz.
Do outro lado, voz mecânica de oficial de justiça:
— Sr. Ricardo Albuquerque, comparecimento obrigatório ao leilão extraordinário convocado pela Galeria Beatriz em caráter de urgência, sob pena de indisponibilidade total de bens listados no edital anexo. Prazo de comparecimento: quatro horas.
Do outro lado da linha veio um som abafado de vidro sendo esmagado contra madeira. A ligação caiu.
Beatriz olhou para Arthur.
— Ele vem.
— Eu sei.
O burburinho no salão principal parou como se alguém tivesse cortado o oxigênio. Ricardo entrou pela porta lateral reservada aos titulares, flanqueado por dois seguranças que pareciam mais preocupados em não serem filmados do que em protegê-lo. O paletó azul-marinho impecável, mas o colarinho já escurecendo de suor na nuca. Ele parou na cabeceira do corredor central. Olhos varreram as fileiras lotadas de credores, ex-sócios e observadores da elite. Ninguém aplaudiu. Apenas o som seco de programas sendo folheados.
Arthur estava na terceira fileira, lado esquerdo, luz do teto batendo direto no rosto. Beatriz, ao lado dele, mantinha as mãos cruzadas sobre o catálogo, unhas cravadas no papel.
Fernando Salazar quebrou o silêncio. Sentado na primeira fila, ergueu o plaquê com calma cerimonial.
—Cinquenta e dois milhões.
Murmúrio subiu. Era o lance de abertura mais alto já registrado na galeria em leilão extraordinário. Ricardo virou o rosto devagar para Salazar. O ex-sócio nem piscou.
Gustavo Halter, duas fileiras atrás, ergueu a placa logo em seguida.
— Sessenta e oito.
Ricardo apertou os dentes. Sentou-se na cadeira central reservada ao devedor principal. Seus seguranças ficaram de pé atrás dele como estátuas desconfortáveis.
Os lances subiram rápido. Setenta e cinco. Oitenta e dois. Noventa. Cada número era uma facada calculada. Os ex-sócios não queriam comprar — queriam queimar. Inflacionar até o ponto em que Ricardo precisasse comprometer reservas que já não existiam.
Salazar fez o lance agressivo no lote principal — participação majoritária na holding central.
—Cento e vinte milhões.
Ricardo autorizou o contador com um aceno seco. O lance foi coberto. Mas Salazar retirou imediatamente a placa, sorrindo frio.
— Retiro. Não vale o risco.
Risos abafados percorreram o salão. Ricardo suava visivelmente agora. Autorizou outra linha de crédito. O lance foi aceito. Beatriz anunciou o próximo lote com voz neutra.
— Próximo lote: controle acionário da cadeia de jade imperial. Lance atual: cento e quarenta e sete milhões.
O martelo ainda pairava quando o contador de Ricardo, Torres, levantou-se abruptamente. Suor escorrendo pela têmpora.
— Senhor Ricardo… as contas… as três contas garantidoras. Bloqueadas. Ordem judicial assinada há sete minutos. Banco Central, Seccional de Crimes Financeiros.
Silêncio cirúrgico. Até o ar-condicionado pareceu parar. Os lances pelo pacote de controle estavam em 1,4 bilhão. Ninguém mais levantava placa.
Ricardo se levantou. Paletó agora apertado nos ombros.
— Isso é sabotagem. Exijo verificação imediata. Meus recursos externos cobrem qualquer valor.
Beatriz segurava o martelo com nós dos dedos brancos. Olhou para Arthur por um segundo. Ele permanecia sentado, pernas cruzadas, pingente de jade imperial visível no colarinho aberto.
Arthur ergueu a voz, calma, cortante.
— Recursos externos? Os mesmos que acabaram de retirar o suporte? — Ele exibiu o celular. Tela mostrando extrato: “Transferência revertida – ordem superior – 14:47”. — Seus ex-aliados já acionaram as garantias. Você está sozinho, Ricardo.
Ricardo apontou para Beatriz.
— Isso é conluio. Vou processar todos vocês.
Arthur se levantou devagar.
— Processe. Mas primeiro pague o que deve.
O martelo bateu um lote intermediário. Vendido por valor irreal. Ricardo, sem opções, anunciou:
— Cobrirei o pacote de controle com recursos externos.
Beatriz suspendeu o leilão por cinco minutos.
Nos cinco minutos, Ricardo ficou junto à grade do mezanino, celular colado à orelha. A voz do outro lado era baixa.
— Você ouviu os números, Ricardo. As garantias foram retiradas às 14:47. Não há mais margem. Boa sorte.
Chamada encerrada. Financiador Principal.
Ele apertou o aparelho até as juntas embranquecerem.
Beatriz subiu ao pódio.
— Suspensão encerrada. Lote final: controle acionário majoritário da Holding Jade Imperial. Lance atual: cento e oitenta e sete milhões. A palavra está aberta.
Ricardo ergueu a placa com gesto mecânico.
— Cento e noventa.
Murmúrio subiu. Ninguém esperava mais.
Arthur ergueu sua placa pela primeira vez.
— Duzentos e dez.
Silêncio absoluto. Ricardo virou o rosto para ele. Pela primeira vez, sem fingimento.
Beatriz leu trecho da certidão que acabara de receber por mensageiro judicial.
— Comunicado oficial: todos os financiadores superiores retiraram suporte. Contas vinculadas congeladas. Não há lastro remanescente.
Ricardo ficou em silêncio. Nenhum blefe restava.
Arthur fez o lance final.
— Duzentos e cinquenta milhões.
Ninguém cobriu.
Beatriz bateu o martelo uma vez. Duas. Três.
— Vendido.
O som ecoou como tiro em câmara fechada.
Arthur olhou diretamente para Ricardo.
— Agora você sabe como é perder tudo em público.
Ricardo permaneceu de pé, imóvel. Atrás dele, no mezanino superior, uma silhueta escura observava tudo em silêncio. Arthur ergueu os olhos por um instante. Reconheceu o contorno do ombro, a postura. Alguém da guerra. Alguém que ele pensava ter deixado para trás.
O martelo soou pela última vez.