A Máscara de Ricardo
O café na esquina da Brigadeiro Faria Lima ainda exalava pão quente e café coado às sete e meia da manhã, mas Arthur não registrava o cheiro. Sentado na mesa de canto, de costas para a parede de vidro, mantinha os olhos cravados no décimo quinto andar do prédio espelhado do outro lado da avenida. As persianas venezianas estavam abertas — sinal de que a reunião de rotina das segundas-feiras já estava em andamento. O celular vibrou contra a madeira. Mensagem no grupo criptografado que ele criara poucas horas antes.
Fernando Salazar: Isso é montagem. Alguém quer nos ferrar. Gustavo Halter: Montagem com carimbo do Banco do Panamá e assinatura digital válida? Acorda, Fernando. Cláudio Menezes: Se for verdade, ele nos enterrou junto. Meu nome está na página 4. 2,7 milhões desviados em 2021. Eu nem sabia que existia essa conta.
Arthur passou o polegar na borda do pingente de jade que pendia sob a camisa. O metal ainda estava frio da noite anterior. A data 17/03/1942 abrira o cofre; a lista extraída dele agora abria feridas muito mais profundas.
Ele digitou uma única linha no grupo anônimo:
Observador: A pergunta não é se ele desviou. A pergunta é: quem mais sabia e continuou calado?
Do outro lado da rua, as silhuetas se agitaram. Fernando se levantou primeiro, gesticulando. Cláudio Menezes bateu o celular na mesa. A rachadura estava visível mesmo a cinquenta metros de distância.
Arthur desligou a tela com um leve sorriso frio. Segundos depois, a primeira mensagem de pânico chegou diretamente para ele: “Quem é você? Quanto quer pra calar a boca?”
O estacionamento subterrâneo cheirava a óleo velho e concreto úmido. Três lâmpadas fluorescentes piscavam em sequência irregular, lançando sombras que pareciam se mexer sozinhas. Arthur estava no banco traseiro do Santana blindado, vidros escuros, motor desligado. Zé, o ex-sargento da segurança patrimonial da família, mantinha os olhos no retrovisor sem dizer uma palavra.
Do outro lado da coluna de concreto, três vozes discutiam em tom que logo virou grito abafado.
“Eu disse que era arriscado demais confiar só nele”, cuspiu Álvaro Montenegro, o contador que lavava os números há quinze anos. Ele segurava o celular com a foto da lista. “Olha aqui o meu nome, data, valor. Ele me vendeu como se eu fosse um lote de sucata.”
“Calma, Álvaro. Pode ser armação”, respondeu Gustavo Halter, mas a mão tremia ao passar o dedo na tela. “Alguém quer nos separar. Dividir pra conquistar.”
O Coronel Otávio Brandão permaneceu de braços cruzados, queixo erguido. Duas contas em Grand Cayman apareciam na lista com datas que coincidiam com obras superfaturadas.
“Se for armação, então por que a senha do cofre dele era a mesma que ele usou pra tirar o Edifício Horizonte da família do Capitão?”, perguntou Otávio, voz baixa e seca. “17 de março de 1942. Data do avô dele. Como esse desgraçado sabia disso?”
Silêncio pesado. Álvaro olhou para os outros dois. “Ele não sabia. Alguém entrou lá ontem à noite. Alguém que conhece a casa melhor que nós.”
Gustavo engoliu em seco. “E se for o próprio Arthur? Ele voltou. Todo mundo viu no baile. Mendes caiu na frente de duzentas pessoas.”
Otávio deu um passo à frente. “Então a gente não espera Ricardo nos chamar. A gente cobra explicação dele. Juntos. E se ele mentir de novo…” Ele deixou a frase no ar.
Álvaro hesitou. “Ou a gente fala primeiro com o homem que tem as provas. Ele quer alguma coisa. Dinheiro, talvez. Ou só quer ver o Ricardo sangrar.”
Os três se entreolharam. A decisão estava tomada.
Arthur retirou o gravador digital do bolso interno do paletó. A luz vermelha ainda piscava. Ele apertou stop e guardou o aparelho. No carro, reproduziu o áudio uma única vez. Vozes claras, nomes, ameaças veladas. A traição agora tinha timbre e sobrenome.
A porta de vidro da sala de reuniões no último andar da holding se abriu com estalo seco. Ricardo estava de pé na cabeceira da mesa oval de ébano, gravata afrouxada, camisa suada colada ao peito. Os três ex-sócios já esperavam, sentados como juízes. Ninguém apertou mãos.
“Vocês marcaram essa palhaçada às três da madrugada porque receberam foto de uma lista velha?”, Ricardo cuspiu, tentando manter o tom de comando.
Dr. Sampaio jogou sobre a mesa três folhas impressas em alta resolução. O nome dele em negrito ao lado de uma transferência de oito milhões para as Ilhas Cayman. Data exata que só Ricardo deveria saber.
“Isso não é montagem”, disse Sampaio, voz baixa e cortante. “Tem o carimbo digital do seu próprio servidor privado. O mesmo que usamos para fraudar o lance do Edifício Horizonte.”
Ricardo sentiu o suor escorrer pela nuca. A mensagem que acompanhava as fotos ainda queimava na memória de todos: “Vocês ainda confiam no homem que vendeu todos vocês?”
“Alguém invadiu meu sistema. Isso é armação do Arthur. O desgraçado voltou rastejando e agora quer nos dividir”, rebateu, batendo o punho na mesa. O copo de cristal tremeu.
Correa empurrou outra foto. Nela, o próprio Ricardo sorria ao lado do financiador misterioso que observara tudo do mezanino no baile.
“E esse aqui? Quem é o cara do fundo que ninguém conhece? Porque ele sabe o nosso nome. E sabe o seu também.”
Ricardo abriu a boca. Nada saiu. Pela primeira vez em anos, o controle escorria pelos dedos.
Otávio se levantou devagar. “Você nos prometeu proteção. Em vez disso, nos colocou na mira de quem quer que tenha essa lista. Se não explicar agora, a gente assume que foi você quem nos vendeu.”
Ricardo avançou um passo. “Vocês não vão a lugar nenhum. Eu ainda contro—”
Ele não terminou. A mão dele voou contra a mesa e fechou em torno do copo. O cristal estilhaçou na palma. Sangue pingou no tampo de ébano.
Os três se entreolharam. Sem dizer mais nada, saíram da sala. Ricardo ficou sozinho, olhando o sangue escorrer, percebendo que o cerco se fechara.
A luz azulada da tela recortava o rosto de Arthur em linhas duras no escritório improvisado nos fundos da galeria. O pingente de jade repousava ao lado do laptop como troféu frio. Faltavam dezessete minutos para as quatro da madrugada. O prazo da chantagem sobre a mãe de Beatriz entrava na reta final.
Ele terminou de montar o pacote: a gravação da reunião na mansão — áudio limpo capturado pelo dispositivo plantado anos antes —, transcrição sincronizada, extratos parciais da lista do microchip e, por último, as senhas de acesso a uma das contas offshore que Ricardo usava para lavar os subornos dos ex-sócios.
Não o suficiente para prender ninguém ainda. O bastante para fazer três homens duvidarem de tudo.
O cursor piscava sobre ENVIAR.
O trinco da porta dos fundos rangeu. Beatriz entrou com duas canecas de café preto. Parou ao ver a expressão dele.
“Já vai soltar o veneno?”
“Se eu não soltar agora, amanhã de manhã Ricardo já terá descoberto o roubo do jade. Ele vai trancar tudo, mudar senhas, ameaçar quem sobrou.” Arthur não levantou os olhos. “E sua mãe fica sem saída.”
Beatriz colocou uma caneca ao lado do teclado. Tocou de leve o ombro dele.
“Então aperta.”
Arthur hesitou um segundo. Depois apertou ENVIAR.
Segundos depois, o primeiro “visto” apareceu. Em seguida, uma ligação de número desconhecido. Ele deixou tocar até cair na caixa postal.
As notificações começaram a pipocar na tela. Mensagens frenéticas no grupo que eles achavam seguro.
Arthur desligou o laptop e murmurou:
“A guerra interna começa.”
O som das notificações preencheu o silêncio da galeria vazia. Do lado de fora, a cidade ainda dormia. Mas dentro daquele prédio, o tabuleiro já estava virado.