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Chapter 7: Dívidas de Sangue e Jade

Arthur infiltra-se silenciosamente na mansão de Ricardo com ajuda de um guarda antigo, recupera o pingente de jade familiar usando a data simbólica do avô como senha e descobre um microchip oculto contendo uma lista de traidores da cidade, incluindo o financiador misterioso do mezanino. Ele envia a lista para ex-sócios de Ricardo, iniciando a discórdia interna, enquanto mantém Beatriz informada sobre a segurança da mãe dela e o risco crescente.

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Dívidas de Sangue e Jade

O Bentley preto cortava a Marginal Pinheiros com os faróis apagados. Eram 02:47 da madrugada, três horas exatas desde que Ricardo saíra do baile com o rosto cinza e os ombros caídos, enquanto a elite virava as costas para ele no salão principal.

Arthur desceu primeiro, camisa social ainda aberta no colarinho, ar úmido colando na pele. Beatriz ficou no banco do passageiro, dedos crispados no rádio portátil.

— Se algum segurança te reconhecer… — murmurou ela.

— Vão reconhecer — respondeu Arthur, voz baixa e controlada. — A questão é se ainda me devem mais lealdade do que medo de Ricardo.

Eles contornaram o muro alto coberto de hera até a portinhola de serviço quase invisível. Arthur bateu duas vezes, pausa, mais três. Código antigo.

A portinhola rangeu. João, rosto marcado pelo sol de quartel, arregalou os olhos por meio segundo antes de estreitá-los.

— Capitão…

— Sargento Mendes já não manda aqui, né, João?

O guarda engoliu em seco.

— Saiu há dois anos. Eu fiquei.

Ele olhou para o corredor vazio atrás de si.

— O que o senhor quer?

— Cinco minutos. Sem alarme. Sem registro. Apenas o corredor de serviço até a sala do cofre.

João hesitou. Seus olhos passaram por Arthur e depois por Beatriz, que esperava nas sombras do carro. Todo o circuito de segurança privada já sabia o que acontecera no baile: Mendes confessando em público, a gravação de Ricardo explodindo nos telões, o magnata isolado como leproso.

— Se me pegarem…

— Você diz que eu forcei a entrada. Mas não vão te pegar.

Mais três segundos. João tirou um cartão magnético do bolso interno e entregou.

— Câmera 17 está fora do ar até as quatro. Turno da madrugada é leve. Se o patrão acordar…

— Ele não vai acordar hoje — disse Arthur, pegando o cartão.

A portinhola se fechou. Arthur seguiu pelo corredor de serviço, passos silenciosos no concreto polido. O rádio no ouvido chiou baixo.

— Patrulha se movendo mais rápido no perímetro norte — avisou Beatriz. — Estão nervosos desde o baile.

— Fique no carro. Se eu não voltar em oito minutos, vá embora.

Ele não esperou resposta.

A sala do cofre ficava no subsolo dois, acessível por escada de serviço que Ricardo nunca usava. A porta blindada fechou-se com um clique quase inaudível. Fitas de LED frio iluminavam o ambiente. No centro, o cofre biométrico de aço escovado aguardava como sentinela.

Arthur tirou a luva de látex da mão direita. Seus dedos pairaram sobre o painel.

Ricardo havia cometido o erro pessoal demais. Anos antes, mandara entregar à mãe de Arthur uma foto antiga do avô com a frase escrita à mão: “Use a data dele para lembrar o que perdeu. 17/03/1942”.

17-03-42.

Arthur digitou os seis números devagar. Cada toque era um insulto devolvido.

O painel piscou verde.

Suspiro hidráulico. A porta pesada moveu-se.

Arthur puxou-a. No terceiro nível, sobre suporte de acrílico, repousava o pingente de jade imperial — o mesmo que o avô usava em todas as fotos de família antes de 1985. A pedra verde-escura capturava a luz fria e a devolvia como se respirasse.

Ele o pegou. O peso era exatamente o que lembrava: sólido, frio, ancestral.

Por um segundo, o ar ficou mais denso. Não era saudade. Era a raiva contida que finalmente encontrava forma física. Aquele jade não era apenas relíquia. Era a prova de que a linhagem não fora apagada.

Arthur virou o pingente. Na borda inferior, quase invisível, uma fenda minúscula. Pressionou com a unha. Clique. A parte traseira abriu.

Não havia foto nem relicário.

Havia um microchip minúsculo colado na parte interna.

Ele o retirou com cuidado, guardou no bolso da camisa e fechou o pingente exatamente como estava. O cofre voltou ao estado original.

Passos pesados ecoaram no corredor superior.

Arthur congelou. O rádio chiou.

— Dois seguranças descendo a escada principal. Armados. Você tem menos de noventa segundos.

Ele saiu da sala do cofre, fechou a porta blindada e seguiu pelo corredor de serviço na direção oposta. A saída secundária dava para uma viela nos fundos. Correu os últimos vinte metros em silêncio absoluto.

Pulou o muro baixo, rolou no gramado úmido e correu até o Bentley.

Beatriz já tinha o motor ligado. Ele entrou. Ela acelerou antes mesmo da porta fechar completamente.

O carro cortava a Marginal com faróis ainda apagados. Luz dos postes riscava o rosto de Arthur em listras amarelas.

Beatriz olhava pelo retrovisor a cada poucos segundos.

— Eles nos viram saindo?

— Não. O portão de serviço ainda usa o sistema antigo. Ninguém monitora o turno da madrugada.

Ela soltou o ar devagar.

— Você fala como se tivesse feito isso mil vezes.

— Fiz o suficiente para saber que Ricardo nunca imaginou que alguém voltaria pela porta dos fundos da própria casa.

Silêncio. Beatriz apertou o volante.

— E agora? A galeria está segura por quanto tempo? Minha mãe…

— Sua mãe está segura enquanto Ricardo acreditar que ainda controla a escritura. Quando descobrir que perdeu o Edifício Horizonte de vez, vai querer sangue.

Arthur abriu o pingente novamente. O microchip estava ali, pequeno e frio contra seus dedos.

Conectou-o ao celular com adaptador discreto. A tela iluminou-se com uma lista digitalizada: nomes, datas, valores, contas offshore. Reconheceu vários — vereadores, juízes, empresários que assinaram sua ruína pública anos antes.

Não era só dinheiro.

Era a lista de quem traíra a cidade.

E no topo, sublinhado duas vezes em vermelho, o nome do homem que financiara tudo: o mesmo que observara Arthur do mezanino durante a confissão de Mendes no baile.

Arthur sentiu o peito apertar. Não de medo. De certeza absoluta.

A escala da guerra havia mudado.

Abriu o aplicativo de mensagens criptografadas. Selecionou três contatos — ex-sócios de Ricardo que já começavam a se afastar depois do baile.

Anexou fotos da lista.

Digitou uma única frase:

“Vocês ainda confiam no homem que vendeu todos vocês?”

Enviou.

O carro seguiu em silêncio. O jade repousava aberto nas mãos de Arthur, brilhando sob a luz fraca do painel.

A guerra interna começava agora.

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