A Queda do Peão
A luz crua da manhã ainda batia no escritório da Galeria Beatriz quando o celular de Arthur vibrou sobre a mesa. Ele leu a mensagem criptografada uma vez, depois outra, o rosto impassível. Beatriz fechou a porta com força, o blazer amarrotado da madrugada ainda grudado no corpo.
— Você está louco? Eles mandaram fiscais falsos e seguranças armados pra cá há poucas horas. Mendes assinou a confissão hoje cedo. E agora quer ir pro baile deles?
Arthur virou a tela para ela.
— Não é qualquer convite. Veja o remetente final. Tenente-coronel Vasconcelos. Ele não assina nada sem precisar de mim.
Beatriz arrancou o telefone, leu, piscou duas vezes e devolveu como se queimasse.
— Aquele que te chamou de “Capitão” na frente dos homens do Ricardo?
— O mesmo. Se Vasconcelos me quer lá, é porque Mendes já abriu a boca. E se Mendes abriu a boca, Ricardo vai tentar apagar o rastro ainda hoje.
Ela cruzou os braços, o colar de jade balançando contra o peito.
— E você vai entrar no ninho deles de peito aberto? Depois de tudo isso?
Arthur guardou o celular no bolso interno.
— Não vou sozinho. Você vem comigo.
Beatriz riu seco, sem humor.
— Pra quê? Pra ser o escudo humano?
— Pra carregar o gravador que vai pro sistema de som do salão. — Ele apontou para a caixinha preta sobre a mesa. — Modificado. Transmite direto pro técnico no mezanino. Se Mendes falar, todos ouvem.
Ela ficou em silêncio alguns segundos, depois pegou o gravador e o prendeu na lapela do paletó dele com dedos firmes.
— Se der errado, a galeria cai. Minha mãe cai. Tudo cai.
— Então não deixa dar errado. — Arthur sustentou o olhar dela. — Vamos.
Horas depois, o Palácio de Jade brilhava sob as luzes douradas. O salão principal cheirava a uísque de malte e tensão mal disfarçada. Arthur entrou com Beatriz de braço dado. O vestido preto dela era sóbrio, mas o colar de jade gritava posse. Cabeças viraram. Cochichos se espalharam como fumaça.
— Olha quem voltou… o Capitão falido.
Arthur não reagiu. Seus olhos já haviam encontrado Ricardo do outro lado: smoking azul-marinho, taça na mão, rindo alto demais com dois banqueiros. Ao lado dele, Mendes suava dentro do colarinho apertado e desviava o olhar sempre que cruzava com o de Arthur.
Beatriz apertou o braço dele.
— A mão esquerda dele está tremendo.
— Perfeito — murmurou Arthur. — Quanto mais nervoso, mais rápido desaba.
Eles avançaram. A multidão se abria devagar, relutante. Quando chegaram perto da mesa de bebidas, Mendes tentou escapar para o corredor de serviço. Arthur foi mais rápido: mão firme no ombro do fiscal, sorriso educado que não chegava aos olhos.
— Uma palavra, Mendes. Só uma.
O fiscal tentou se desvencilhar.
— Estou indisposto… preciso de ar.
— Ar fresco lá fora não resolve o que sua filha vai ler nos jornais amanhã. — A voz de Arthur saiu baixa, quase amigável. — Bolsa integral na Sorbonne. Doações mensais de Ricardo. Tudo documentado.
Mendes congelou. O rosto perdeu a cor.
Do outro lado do salão, Ricardo observava. Fez um gesto curto para um assessor. O homem começou a se aproximar. Arthur não esperou. Empurrou suavemente Mendes para o corredor.
— Vamos conversar onde ninguém nos interrompe.
A porta da saleta reservada se fechou com um clique abafado. O cheiro de couro e uísque antigo envolveu os três. Beatriz ficou junto à porta, vigiando. Arthur sentou-se na poltrona, pernas cruzadas, celular sobre o braço do móvel.
Mendes desabou na cadeira oposta, suando apesar do ar gelado.
— Você já assinou a primeira confissão às seis da manhã — começou Arthur. — Admitiu que a auditoria foi encomendada por Ricardo sem base legal. Já temos isso gravado e assinado. Agora falta a parte verbal. A parte que liga ele diretamente à fraude na licitação do Horizonte.
Mendes engoliu em seco.
— Eu posso entregar tudo. Prints, transferências, mensagens. Só me garante proteção. Redução de pena. Qualquer coisa.
Arthur não piscou.
— Não existe acordo. Você fala porque não tem escolha.
Ele tocou a tela do celular. Uma captura antiga apareceu: transferência bancária, mesma data da bolsa da filha de Mendes, remetente ligado a uma empresa de fachada de Ricardo.
— Ele já te abandonou, Mendes. Nenhum advogado apareceu. Nenhum telefonema. Seu celular está mudo porque ele cortou o cordão.
O fiscal olhou para o aparelho sobre a mesa. Nenhum sinal. Nenhum ícone de mensagem. Os ombros caíram.
— O que você quer que eu faça?
— Suba ao palco principal. Leia a confissão na frente de todos. Repita o que já assinou. E mencione o nome dele.
Mendes fechou os olhos por um segundo longo. Depois abriu.
— Me dá a caneta.
Ele assinou a declaração complementar com a mão tremendo. Arthur guardou o papel.
— Vamos.
De volta ao salão principal, o silêncio caiu como lâmina. As luzes brancas dos lustres transformavam cada gota de suor na testa de Mendes em um pequeno diamante acusador. Arthur subiu os três degraus do palco e parou um passo atrás do fiscal. Mendes segurava o microfone com as duas mãos.
A gravação da ligação já havia rodado duas vezes nos telões laterais — a voz de Ricardo nítida: “Faz o que eu mando. Se ele aparecer, enterra.”
Mendes respirou fundo.
— Eu admito… — A voz rachou. Ele olhou para Ricardo na terceira fila, corredor central. Nenhum apoio. — Recebi ordens diretas de Ricardo Albuquerque para fraudar a auditoria da Galeria Beatriz. O mandado foi forjado. Não havia irregularidade nenhuma. Era para pressionar dona Beatriz a entregar a escritura do Edifício Horizonte.
Um murmúrio baixo começou nas laterais. Ricardo permaneceu sentado, sorriso fixo.
— Ele está instável — disse Ricardo alto o suficiente para ser ouvido. — Um traidor sob pressão. Não tem credibilidade.
Mendes continuou, voz mais firme agora.
— As transferências para a educação da minha filha vieram da conta dele. Mensagens dele. Ordens dele. Tudo gravado.
Os telões mostraram as capturas. A multidão ficou em silêncio absoluto.
Ricardo se levantou devagar.
— Isso é calúnia. Vou processar todos vocês.
Um investidor grisalho na segunda fila ergueu o celular.
— O dossiê já circula nos grupos fechados, Ricardo. Seu nome está em vermelho. Vários aqui já receberam.
Dois magnatas se afastaram dele. Depois mais três. O círculo em torno de Ricardo se esvaziou como água escorrendo por ralo.
Mendes terminou a confissão com a voz embargada. Lágrimas escorriam. Ele largou o microfone e desceu do palco cambaleando.
Ricardo ficou sozinho no centro do corredor central. Ninguém olhava mais para ele. Os seguranças do evento trocaram olhares e se posicionaram mais perto das saídas.
Arthur desceu do palco sem pressa. Parou ao lado de Beatriz. Olhou diretamente para Ricardo.
Seus olhos se encontraram.
Ricardo sustentou o olhar por três segundos. Depois virou o rosto e saiu do salão, passos duros ecoando no silêncio.
Arthur sentiu o peso do olhar de alguém nas sombras do mezanino. Uma silhueta alta, imóvel. Não era Vasconcelos.
Alguém mais alto na cadeia.
Beatriz tocou o braço dele.
— Acabou?
— Não — respondeu Arthur, voz baixa. — Só o peão caiu.
No canto do salão, um estojo de jade antigo foi colocado sobre uma mesa secundária. O próximo leilão começaria em minutos.
E dentro dele, algo além de dinheiro esperava para ser aberto.