O Contra-Ataque de Ricardo
As primeiras luzes cinzentas do amanhecer mal atravessavam as janelas altas da Galeria Beatriz quando as portas duplas foram escancaradas com violência. O estrondo ecoou pelo salão vazio como um tiro de advertência. Quatro seguranças de terno preto entraram primeiro, mãos próximas das armas ocultas, bloqueando as saídas. Atrás deles veio o fiscal Mendes, mandado na mão direita, rosto vermelho de autoridade emprestada.
— Auditoria extraordinária! — gritou ele, voz cortando o silêncio. — Ninguém sai. Ninguém toca em documento nenhum. Lacrem os cofres agora!
Os poucos funcionários que haviam chegado cedo congelaram. Uma moça da recepção deixou cair a caneta; o clique metálico soou alto demais. Beatriz surgiu da porta lateral do escritório, ainda com o casaco sobre os ombros, o rosto pálido mas o queixo erguido. Seus olhos encontraram os de Arthur.
Ele estava sentado na cadeira de mogno do canto, pernas cruzadas, xícara de café fumegante na mão esquerda. Na mesa à sua frente, o pequeno gravador digital repousava como se fosse parte da decoração. Arthur não se moveu. Apenas observou Mendes marchar até a mesa central e bater o papel com força.
— Ordens expressas. Cofres lacrados, documentos apreendidos. Qualquer resistência é obstrução à justiça. — Mendes estalou os dedos. Dois seguranças avançaram em direção à porta blindada dos cofres, chaves tilintando.
Arthur tomou um gole lento do café. O líquido já estava morno.
— Bom dia, Mendes — disse ele, voz calma, quase cortês. — Veio cedo. O cartório nem abriu ainda.
Mendes virou-se rápido, olhos estreitados.
— Você não manda aqui, seu falido. Fica quieto ou te algemo junto.
Arthur ergueu o gravador com dois dedos, polegar pairando sobre o play.
— Antes de lacrar qualquer coisa, ouça isso. É rápido.
Mendes riu seco, mas o som saiu forçado.
— Acha que um gravadorzinho vai me parar? Aperta aí. Depois eu apreendo o aparelho como prova de tentativa de suborno.
Arthur apertou.
A voz de Mendes saiu nítida pelo alto-falante minúsculo, distorcida apenas pelo telefone do outro lado da linha:
“…sim, senhor Almeida. A auditoria abre às seis em ponto. Pagamento na conta de sempre, metade agora, metade quando lacrarem tudo. A Galeria Beatriz cai hoje. Pode mandar os rapazes.”
Silêncio absoluto no salão. Até os seguranças pararam. Beatriz deu um passo à frente, os punhos cerrados ao lado do corpo.
Mendes empalideceu. Tentou avançar para arrancar o aparelho, mas Arthur ergueu a mão livre — um gesto mínimo, mas suficiente para fazer o fiscal recuar instintivamente.
— Isso foi ontem à noite — continuou Arthur, tom neutro. — Vinte e três e quarenta e sete. O número que ligou para você está registrado. Pertence a Ricardo Almeida. Quer que eu mostre o comprovante de transferência que veio logo depois?
Um dos funcionários mais antigos, um homem de uns cinquenta anos chamado Jorge, deu um passo à frente.
— Eu conheço essa voz. Foi o mesmo cara que apareceu aqui há dois anos, na auditoria da antiga casa do Seu Roberto. Mesma história. Mandado, ameaça, cofres lacrados. Depois o leilão era remarcado e o dono perdia tudo.
Mendes girou para ele.
— Cale a boca! Isso é gravação ilegal! Não tem valor jurídico nenhum!
Arthur se levantou devagar. Colocou a xícara na mesa com cuidado.
— Tem valor social suficiente para acabar com sua carreira antes do almoço. E a sua também, Mendes. Quer testar?
Beatriz avançou até ficar ao lado dele.
— Saiam da minha galeria agora — disse ela, voz firme apesar do tremor quase imperceptível nas mãos. — Ou eu mesma ligo para a polícia e mostro essa gravação. Invasão, coação, falsidade ideológica. Escolham.
Mendes olhou ao redor. Os seguranças hesitavam. Um deles já dava meio passo para trás.
Arthur apontou com o queixo para a porta do escritório anexo.
— Vamos conversar lá dentro, Mendes. Só nós dois. Talvez você ainda saia daqui com alguma dignidade.
O fiscal hesitou mais cinco segundos. Depois baixou a cabeça e seguiu Arthur.
A porta se fechou com um clique seco.
Dentro do escritório, Arthur indicou a cadeira. Mendes sentou na ponta, mãos apertando os joelhos.
— Duas saídas — disse Arthur, sentando de frente para ele. — Primeira: você grava uma declaração curta. Quem mandou, quando, por quê. Eu guardo o arquivo e você sai com o cargo… por enquanto. Segunda: eu entrego tudo que tenho para a imprensa e para a corregedoria. Perde o emprego, responde processo criminal, e Ricardo joga você aos cachorros antes do primeiro interrogatório.
Mendes engoliu em seco.
— Ele me mata se eu falar.
— Ele já te jogou fora — respondeu Arthur. — Você é custo agora. O dossiê com seu nome em vermelho já circula. Quer ver?
Cinco minutos depois, Mendes terminou de ditar a declaração curta. Assinou com mão trêmula. Arthur guardou o papel no bolso interno do paletó.
Quando voltaram ao salão, Mendes estava pálido, suado. Ordenou aos seguranças que recuassem. Murmurou algo para si mesmo — “Ricardo está acabado mesmo” — antes de sair apressado.
Arthur parou no centro do salão. Colocou o gravador sobre a mesa de recepção.
— A auditoria acabou — anunciou, voz clara. — Mendes confessou. O mandado era falso, encomendado por Ricardo Almeida. Quem quiser ouvir a gravação, pode ouvir. Quem quiser ver a confissão assinada, também.
Silêncio. Depois um dos seguranças mais velhos — cabelo grisalho curto, cicatriz fina na têmpora — deu um passo à frente.
— Capitão…?
Arthur virou o rosto devagar.
— Sargento Oliveira. Faz tempo.
O homem engoliu em seco. A mão que estava próxima da arma desceu lentamente.
— Eu… não sabia que era o senhor. Desculpe.
Os outros seguranças trocaram olhares. Um a um, começaram a se dirigir à saída. A lealdade comprada evaporava rápido quando o pagamento secava.
Arthur sentou novamente na cadeira de mogno. Tomou o último gole do café frio. Olhou para Beatriz.
— Agora eles sabem que o próximo movimento não será dele.
Beatriz cruzou os braços, mas havia algo novo no olhar dela — não mais só medo ou gratidão, mas respeito relutante.
— E amanhã cedo? — perguntou ela, voz baixa. — A autenticação no cartório. Se Ricardo descobrir que a escritura e o laudo vão ser registrados…
Arthur sorriu de leve, o primeiro sorriso verdadeiro desde que voltara à cidade.
— Ele já está sozinho. E quando os financiadores de verdade virem que o peão perdeu o tabuleiro, vão querer conversar com o novo jogador.
O sol finalmente rompeu as janelas, jogando luz dura sobre o salão. A cidade lá fora acordava sem saber que o equilíbrio de poder acabara de mudar de mãos.