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Chapter 4: Sombras no Salão

Após a anulação pública do leilão, Arthur força Beatriz a aceitar sua liderança estratégica em troca de proteção imediata contra as represálias de Ricardo. No escritório da galeria, revelam a profundidade da chantagem sobre a mãe dela e decidem manter os pagamentos por 48 horas enquanto Arthur mobiliza contatos antigos. Paralelamente, Ricardo recebe ligação fria de um superior hierárquico que o rebaixa a 'custo dispensável', expondo a hierarquia maior e precipitando sua decisão de agir sozinho.

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Sombras no Salão

O corredor lateral da Galeria Solis ainda ecoava os murmúrios abafados do salão principal. Arthur caminhava sem pressa, os passos firmes contra o piso de mármore polido. Beatriz seguia logo atrás, o salto batendo mais rápido do que o normal. Quando chegaram à porta da sala reservada, ela parou.

— Isso não muda o acordo — disse ela, voz cortante apesar do cansaço. — Você anulou o leilão. Parabéns. Mas a Galeria Solis continua sendo minha. Eu cuido da minha casa.

Arthur girou a maçaneta sem responder de imediato. Entrou primeiro, acendeu a luz baixa. A sala era pequena, paredes forradas de veludo verde-escuro, uma mesa oval e duas poltronas. Ele esperou que ela entrasse e fechou a porta com um clique suave.

— Sozinha você já estava cuidando — respondeu, finalmente virando-se. — Sozinha você assinou o contrato que colocou a casa da sua mãe como garantia. Sozinha você deixou o laudo original sair do cofre sem cópia autenticada. E sozinha você acha que amanhã de manhã vai conseguir entrar no cartório sem dois carros pretos estacionados na esquina.

Beatriz apertou a alça da bolsa com mais força. A escritura original estava lá dentro, junto com o peso de tudo que ela ainda não tinha dito.

— Eu não vou entregar o controle da galeria para você, Arthur. Não importa o quanto você tenha virado o jogo hoje.

Ele deu um passo na direção dela. Não invadiu o espaço. Apenas ocupou o suficiente para que ela sentisse a diferença de altura e de calma.

— Eu não pedi a galeria. Pedi a estratégia. Tem diferença.

Ela cruzou os braços.

— E qual é a sua estratégia? Sentar no meu escritório e esperar os fiscais aparecerem?

— Minha estratégia é simples. Você autentica a escritura e o laudo amanhã cedo. Enquanto isso, eu mantenho os seguranças de Ricardo longe da sua porta. E longe da casa da sua mãe.

Beatriz riu, um som seco e sem graça.

— Você tem dois caras na saída dos fundos. Isso não é exército. É blefe.

Arthur tirou o celular do bolso interno do paletó. Discou sem olhar a tela. Colocou no viva-voz.

— Capitão? — atendeu uma voz rouca do outro lado.

— Confirma posição — disse Arthur.

— Dois carros pretos na rua lateral. Placas trocadas. Motor ligado. Três homens dentro. Armados.

— E os nossos?

— Posição mantida. Um na escada de serviço, outro no estacionamento subterrâneo. Se eles subirem, a gente corta antes do elevador.

Beatriz ficou imóvel. O sorriso morreu.

Arthur desligou.

— Não é blefe. É precaução. Agora me diz: você quer atravessar o saguão amanhã com eles esperando, ou prefere que eu cuide disso enquanto você cuida do cartório?

Ela respirou fundo. Abriu a bolsa, tirou a chave do cofre particular da galeria e a colocou na mesa com um gesto seco.

— Você passa a noite no escritório principal. Só hoje. Amanhã a gente vê o resto.

Arthur pegou a chave sem tocar na mão dela.

— Combinado.

A meia-noite já pesava quando chegaram à Galeria Beatriz, dois quarteirões adiante. O prédio parecia deserto, apenas a luz de segurança acesa no hall. Beatriz digitou o código da porta privativa. Subiram pelo elevador de serviço até o último andar.

No escritório principal, o cofre estava embutido atrás de uma estante falsa. Ela girou a combinação com dedos que já não tremiam tanto. A porta abriu com um suspiro.

Pastas bege, etiquetas manuscritas. Ela puxou a mais grossa.

— Aqui. Transferências mensais. Conta offshore ligada ao Ricardo. Sempre no dia do aluguel da casa da minha mãe. “Empréstimo familiar”. Assinatura eletrônica do desembargador que homologa os acordos.

Arthur folheou. Números redondos. Carimbos digitais. Ele fechou a pasta.

— Quanto tempo ela aguenta sem esse dinheiro?

— Três meses. Depois o banco executa. Ela perde a casa. Perde o quintal onde meu pai plantou jabuticabeira antes de morrer. É o último pedaço de chão que ainda tem o cheiro dele.

Arthur ficou em silêncio. Depois:

— Se pararmos os pagamentos agora, ele sabe que perdemos o medo. Aperta mais forte. Manda os caras aparecerem na porta dela com uma ordem de despejo assinada.

— E se continuarmos?

— Ganho 48 horas. Tempo suficiente para virar o jogo de vez.

Beatriz encostou na parede.

— Você está me pedindo para manter minha mãe refém do próprio dinheiro.

— Estou pedindo para manter o dinheiro vivo até eu cortar a cabeça da cobra.

Ela olhou para o chão por longos segundos.

Arthur pegou o celular novamente. Discou.

— Coronel.

— Fala, Capitão.

— O desembargador que assina os acordos do Ricardo. Ainda recebe mesada da mesma conta?

— Recebe. E aumentou o valor há dois meses. Quer que eu mande o comprovante?

— Manda.

Segundos depois, o celular vibrou com a chegada do arquivo. Arthur abriu, mostrou a Beatriz. A mesma conta offshore. O mesmo dia do mês.

Ela leu. Fechou os olhos.

— 48 horas. Só 48 horas. E você assume responsabilidade pessoal pela segurança da minha mãe.

— Assumo.

Ela assentiu uma única vez.

A cobertura de Ricardo ocupava os dois últimos andares da torre mais alta da Avenida Paulista. Vidro do chão ao teto. Luzes da cidade se arrastando lá embaixo como rio de fogo.

Ele estava de pé diante da janela panorâmica, paletó jogado no sofá, gravata frouxa, uísque na mão. O celular vibrou sobre a mesa de mármore preto. Número bloqueado.

Atendeu no segundo toque.

— Fala.

Silêncio de três segundos. Depois uma voz masculina, baixa, sem emoção.

— Você foi avisado que o risco era alto.

Ricardo apertou o copo.

— Eu controlo a Galeria Solis há sete anos. O leilão estava fechado. A certidão era perfeita. O laudo falso custou duzentos mil dólares. Ninguém nunca questionou antes.

— Antes você não tinha o Capitão na sala.

Ricardo sentiu o estômago contrair.

— Ele é um fantasma. Um mendigo que voltou para mendigar. A escritura que ele mostrou pode ser contestada. Posso comprar o tabelião, o cartório, o juiz de plantão. Me dá quarenta e oito horas.

A voz não subiu nem um decibel.

— Quarenta e oito horas atrás você era um ativo. Agora você é um custo. O dossiê já circula. Seu nome está destacado em vermelho. Três investidores retiraram o capital esta noite. Outros dois estão avaliando.

Ricardo olhou para a cidade. As luzes pareciam mais distantes.

— Eu conserto isso. Amanhã de manhã eu já tenho o cartório na mão.

— Não vai ter cartório nenhum. O Capitão já tem gente posicionada. E nós não financiamos custos.

A linha ficou muda por um instante.

— Se houver mais escândalo, você sai do jogo. Definitivamente.

Clic.

Ricardo ficou olhando o celular. Depois olhou para a cidade lá embaixo.

— Então eu mesmo acabo com eles antes do sol nascer.

Ele largou o copo na mesa. O vidro tilintou contra o mármore.

Lá fora, o céu começava a clarear nas bordas.

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