Escalada de Risco
O teto do terceiro andar não estava apenas desabando; ele estava sendo deletado. Grandes placas de metal cromado, antes o orgulho da arquitetura corporativa da Torre, dissolviam-se em pixels de luz fria e estática purpúrea. Kaelen sentiu o impacto através dos atuadores do Sucata-V, um tremor que subiu pela sua coluna vertebral como um choque elétrico. O cronômetro em sua interface periférica marcava 01:58:12. Cada segundo ali era uma fatia de vitalidade da sua família sendo convertida em combustível para a manutenção daquele abismo.
— Sistema, traçar rota de saída pela zona de processamento — ordenou Kaelen, ignorando o aviso de integridade estrutural que piscava em vermelho escarlate no seu HUD.
"Rota de saída bloqueada por protocolo de purga. Risco de anomalia: Crítico", respondeu a voz metálica do sistema.
Kaelen não esperou. Ele acionou o atuador de alta classe que arrancara de um veterano. O componente proibido rugiu, sobrecarregando o sistema hidráulico. O Sucata-V saltou, um movimento bruto, ineficiente, mas desesperado. Ele atravessou o abismo onde o chão terminava, aterrissando com um estrondo metálico enquanto o metal sob seus pés se desintegrava no vazio infinito da Torre.
O teto gemeu, um som metálico de agonia. Foi quando ele a viu. O brilho neon da armadura de Valéria, presa sob uma viga de contenção, cortava a poeira como uma lanterna em um cemitério.
— Kaelen! — A voz dela, distorcida pelo capacete rachado, não era de súplica, mas de comando. — O código de acesso da porta blindada do setor de resíduos... eu tenho a chave mestra. Se você me tirar daqui, eu a entrego.
Kaelen parou. À sua frente, o duto de ventilação era a única rota para o setor de processamento. O temporizador em seu visor marcava 01:54:30. Salvar Valéria custaria pelo menos quatro minutos preciosos de manobra.
— Você é uma corporativa até no último suspiro — disse Kaelen, aproximando-se. O calor da viga, superaquecida pelo atrito do colapso, irradiava pelo seu traje. — Por que eu deveria confiar em você?
— Porque você não tem escolha — ela sibilou. — O Sistema já marcou você como 'Anomalia de Nível 7'. Sem o meu código, a porta do Setor 4-B vai incinerar você antes que você coloque a mão no painel.
Kaelen sentiu o peso da escolha. Ele não a salvou por piedade. Ele a puxou porque precisava daquela chave, e porque queria que ela visse o que a corporação dela estava fazendo. Com um esforço que fez o Sucata-V gemer, ele levantou a viga. Valéria caiu, ferida, mas viva. Ela transferiu o código, seus dedos trêmulos digitando na interface.
— Você acabou de assinar sua sentença — ela avisou, limpando o sangue da boca. — Eles vão descartar este andar inteiro para garantir que você não saia.
O chão do Setor 4-B soluçava. O metal gemia sob a pressão de toneladas de detritos sendo compactados em direção aos fornos de extração. O cronômetro marcava 01:42:15. Kaelen impulsionou o Sucata-V, ignorando os alertas de 'ANOMALIA'. Ele chegou ao centro do setor: um moedor industrial massivo. O "coração" da máquina era um terminal de acesso exposto, cercado por autômatos de segurança.
Kaelen olhou para o terminal. Ele sabia que, ao conectar-se, estaria se expondo à drenagem direta da Torre. Ele olhou para Valéria, que observava das sombras. Kaelen sorriu, um gesto frio. Ele não ia apenas subir; ele ia quebrar a engrenagem por dentro. Ele mergulhou no terminal, sentindo a Torre drenar sua vitalidade. Ele não estava mais subindo; ele estava entrando no coração da máquina.