O Novo Teto
O Sucata-V não era mais um mech; era um caixão metálico sendo espremido pela pressão hidráulica da própria Torre. O terminal de processamento de almas pulsava em um ritmo doentio, um som de engrenagens moendo osso que vibrava diretamente no chassi de Kaelen. O visor lateral exibia o cronômetro: 01:42:15. Cada segundo não era apenas tempo; era a contagem regressiva para a aniquilação de sua família no Setor 4-B.
— Kaelen, o sistema está purgado! — A voz de Valéria, distorcida pelo comunicador, cortou o ar estático. Ela estava ali, a poucos metros, protegida pelos restos de uma carcaça, mas a arrogância da elite corporativa fora substituída pelo pânico da presa. — Se você não desconectar, a carga estática vai fritar seu córtex. O sistema não está apenas processando dados; ele está drenando sua essência para estabilizar a rede.
Kaelen ignorou o aviso. Seus dedos, trêmulos, dançavam sobre a interface de comando. O Sucata-V rangeu, placas de metal se soltando e caindo no chão com o som de uma sentença de morte. A Torre o havia marcado como 'Anomalia de Classe-0'.
— Eu não vim para sobreviver, Valéria — Kaelen sibilou, sentindo o gosto metálico de sangue na boca. A drenagem vital era uma agulha fria perfurando sua espinha.
Ele projetou um fragmento de memória do seu mentor: a imagem clara de um antecessor sendo desintegrado para alimentar a rede. A linhagem de Valéria, seus privilégios e sua ascensão, brilharam na tela como uma conta bancária aberta. O sistema não era uma arena; era um açougue.
— Você está se matando — Valéria sussurrou, rouca. — Esse terminal não é uma prova de ranking. É um moedor. A Torre não recompensa quem chega ao topo; ela recicla quem falha na base.
Kaelen não desviou o olhar. Ele forçou o Sucata-V a se estabilizar, ignorando o aviso de integridade estrutural crítica. A verdade atingiu Valéria como um golpe físico. Ao ver a natureza da extração, sua postura mudou. Ela não era mais a rival, mas a cúmplice forçada. Com um gesto trêmulo, ela entregou os códigos de acesso adicionais. A chave mestra do Setor 4-B vibrou na interface de Kaelen.
O cronômetro saltou para 01:20:00. O Sistema detectou a intrusão. Três sentinelas de elite, silhuetas cromadas armadas com lâminas de plasma, surgiram das sombras. Kaelen tentou erguer a lâmina, mas o peso da energia drenada o forçava contra o piso gélido. Valéria saltou sobre o console, os olhos brilhando com o azul autoritário de sua linhagem, forçando uma sobrecarga nos sistemas de defesa para ganhar segundos preciosos.
Kaelen não hesitou. Ele injetou o código do mentor no núcleo. O mundo tremeu. O ranking global oscilou violentamente, nomes de topo desaparecendo em um piscar de olhos enquanto a realidade ao seu redor se fragmentava em cubos de dados. Ele aceitou a marcação de 'Anomalia Total'. A dor foi lancinante, mas o Sistema abriu as portas. O terceiro andar não era mais um desafio; era uma câmara de reciclagem que se desfazia. À frente, o quarto andar não revelava uma arena, mas o coração pulsante da máquina. Ele não estava mais subindo; ele estava entrando na garganta da Torre.