O Preço da Verdade
O ar no terceiro andar da Torre tinha gosto de ozônio e metal queimado, um sabor metálico que grudava no fundo da garganta. Kaelen sentiu o Sucata-V estremecer, os atuadores hidráulicos protestando contra a sobrecarga enquanto ele forçava a interface neural a decodificar o fluxo de dados brutos que acabara de extrair. O cronômetro de resgate, uma linha vermelha impiedosa no canto de sua visão, marcava 01:58:12. Sua família estava no Setor de Resíduos 4-B. Eles não estavam trabalhando; eles estavam sendo usados como baterias orgânicas.
— Kaelen, o que você fez? — A voz de Valéria soou pelo canal privado, cortante. O mech dela, uma obra-prima de blindagem cromada, bloqueava a investida de dois drones de patrulha. — O Sistema está sinalizando falha catastrófica. Seus logs de pilotagem estão sangrando código anômalo em todo o placar público. Você vai nos matar!
Kaelen não respondeu. A dor em seu córtex era como agulhas cravadas no cérebro. Ele ignorou os avisos de 'Drenagem Vital Ativa' que piscavam em vermelho. Ele precisava daquela memória, o fragmento final deixado por seu mentor antes de ser descartado pela corporação. Ao forçar a conexão, o mundo ao seu redor dissolveu-se em estática carmesim.
Ele não viu arquivos; viu uma visceralidade compartilhada. Seu mentor, décadas mais jovem, estava ajoelhado em uma câmara selada, cercado por tubulações de neon que zumbiam em uma frequência hipnótica. Kaelen sentiu o choque elétrico, a sucção forçada de sua essência vital sendo convertida em crédito de ranking. Extração concluída, o Sistema sussurrou em sua mente, ignorando a agonia neural. A revelação queimou: a Torre não era uma escada para a glória, era um moedor de almas onde o combustível de elite vinha do sangue da base.
Kaelen despertou com um engasgo, o cockpit do Sucata-V soltando faíscas. A realidade física colidiu com a brutalidade da verdade. Valéria o agarrou pelo colarinho do mech, seus olhos brilhando com uma urgência predatória.
— O que você viu? — ela sibilou, a voz distorcida pelo caos ao redor. — Essa memória não era um erro, era uma diretriz de extração. Você tem a chave mestra, Kaelen. Entregue-a.
Kaelen sentiu o pulso do Sistema, uma vibração metálica que corroía seus nervos. Ele olhou para o teto do terceiro andar, que começava a contorcer-se em espasmos de metal. A Torre, detectando sua anomalia, estava purgando o setor.
— A chave não é um objeto que você carrega, Valéria — Kaelen sibilou, forçando um sorriso que não alcançava seus olhos. — É a própria estrutura. Se você quer subir, vai ter que aprender a cair.
Sem esperar, ele desativou os amortecedores de inércia e disparou o Sucata-V contra o suporte central do andar. O som do metal cedendo foi ensurdecedor. O teto começou a desabar, forçando Valéria a recuar ou ser esmagada. Kaelen não olhou para trás. Ele mergulhou nas entranhas da Torre, o cronômetro piscando em vermelho, a verdade sobre o moedor de almas queimando em sua mente como ácido. Ele não estava apenas fugindo; ele estava quebrando o tabuleiro.