A Lei do Piso Superior
O ar do terceiro andar não era apenas rarefeito; era uma lâmina de vácuo industrial que cortava a integridade do Sucata-V. A transição forçada pela rota oculta não fora uma subida, mas um colapso arquitetônico. O teto do nível inferior desabara, fundindo-se à nova zona de vácuo. O painel de controle do mech, uma colcha de retalhos de componentes proibidos, emitia um zumbido dissonante.
Aviso do Sistema: Atmosfera Incompatível. Drenagem de Integridade: 4% por ciclo. Prazo de Sobrevivência: 58 segundos.
Kaelen sentiu o puxão familiar no peito. O Sistema não estava apenas drenando o combustível do mech; ele sugava a energia vital de Kaelen para compensar a anomalia do hardware de elite. À sua frente, sentinelas de vácuo, carcaças cromadas sem rosto, deslizavam pelo piso magnetizado. Eram a Lei do Piso encarnada: frias, eficientes, deletando qualquer irregularidade na contabilidade da Torre.
Kaelen forçou a alavanca de manobra. O Sucata-V gemeu, o chassi de metal retorcido protestando contra a pressão. Ele não podia recuar. Com um comando mental, acessou o fragmento de memória do antecessor, forçando o Sistema a reescrever a gravidade local por míseros três segundos. O chão sob as sentinelas cedeu, arremessando-as contra as paredes de contenção. O impacto foi violento, mas o custo foi imediato: o medidor de autonomia despencou para 9%.
— Você parece um animal acuado, Kaelen — a voz de Valéria cortou o silêncio metálico. Ela estava parada sobre uma viga de sustentação, o traje de combate imaculado contrastando com a fuligem das ruínas. Ela não atacou; apenas observava com a curiosidade fria de quem estuda um erro estatístico. — O ranking não é um playground para mecânicos de sucata. Você subiu mil posições, mas a Torre já está corrigindo o erro. Seu hardware é uma anomalia gritante. Cada vez que você força o sistema, o rastreamento se torna mais preciso.
Kaelen não respondeu. Seus dedos voavam pelos controles, hackeando um terminal de dados exposto pela descompressão. Ele precisava de alavancagem. Enquanto Valéria falava, ele percebeu a hesitação em seus olhos: ela não estava ali por ordem da Torre, mas por desespero. Ela perdia status, e a ascensão dele era a única chave para os dados que ela precisava para se manter no topo.
— Você não está aqui para me deletar — Kaelen sibilou, a voz rouca pelo esforço. — Você está aqui porque a Torre já começou a te descartar. Você precisa da rota que eu abri.
Valéria estreitou os olhos, a fachada de perfeição trincando. Antes que ela pudesse responder, a Torre reagiu à presença da anomalia. O corredor de extração começou a vibrar com uma frequência de purificação. Unidades de contenção surgiram nas sombras, bloqueando a única saída. Valéria avançou, bloqueando o caminho de Kaelen com seu próprio mech, o brilho dourado de sua armadura ofuscando a luz de emergência.
— Você não é um erro, Kaelen — ela disse, a voz destilando uma frieza cortante. — Você é uma anomalia. E anomalias são deletadas.
Kaelen sentiu o relógio do sistema marcar 45 segundos. Ele acessou o nó de dados final, forçando o upload. A tela piscou, revelando não apenas a próxima rota, mas um arquivo criptografado que ele reconheceu instantaneamente: a localização da base de trabalho de sua família. O cronômetro de resgate começou a contar regressivamente, e o peso da dívida de 450.000 créditos pareceu insignificante diante da nova ameaça que se desenhava no horizonte.