O Custo da Ascensão
O vapor chiou ao escapar das juntas do chassi, um som agudo que perfurou o silêncio tenso do Paddock de Manutenção. Kaelen desabou para fora do cockpit, seus dedos tremendo tanto que mal conseguiu soltar as travas de segurança. O Sistema, uma interface de cor âmbar que flutuava em sua retina, não lhe deu trégua: Sobrecarga de Núcleo: 84%. Dano estrutural em micro-fraturas detectado.
Ele engoliu em seco, sentindo o gosto metálico de sangue na garganta. O salto de 500 posições no ranking oficial da Torre não era uma vitória; era um alvo pintado em suas costas. A dívida de 450.000 créditos permanecia lá, uma sombra fria, enquanto o temporizador do Sistema avançava implacável: Próximo ciclo de juros: 58 segundos.
— Você quase se matou por migalhas, Kaelen — uma voz feminina, gélida e polida como vidro, ecoou pelo hangar.
Kaelen ergueu o olhar. Valéria estava parada na passarela superior, seus olhos escaneando o estado deplorável do seu mech com um desdém que feria mais que a exaustão física. Ela não estava ali por acaso; ela estava caçando anomalias. Se a corporação descobrisse a rota oculta que ele usara para otimizar o tempo de resposta, o mech seria confiscado e ele seria descartado como lixo industrial.
— A sobrevivência não é uma escolha, é uma conta a pagar — respondeu ele, forçando-se a levantar. Seus joelhos cederam, mas ele se apoiou no metal aquecido do seu 'Sucata-V'.
Valéria desceu os degraus com a elegância de um predador. Ela parou a poucos centímetros, o uniforme impecável da Elite contrastando com a sujeira da oficina. Ela não olhou para o mech, mas para a tela de status onde o nome de Kaelen brilhava em uma posição que, por contrato, não lhe pertencia.
— Quero saber como um sucateador com um sistema operacional defasado consegue tempos de reação acima da média corporativa — ela estendeu a mão, o dispositivo de inspeção em seu pulso emitindo um brilho azulado. — A Torre não comete erros, Kaelen. Ela processa anomalias. E você é, no momento, um erro estatístico que eu tenho ordens para corrigir.
Kaelen sentiu o pulso do Sistema: Ciclo de dívida: 45 segundos. Ele não podia permitir a inspeção. Acessando uma memória fragmentada, ele forçou a interface a projetar um código de lei obscura da Torre, um protocolo de 'Desafio de Integridade de Piso' que impedia inspeções sem um confronto formal.
— Se quiser me auditar, Valéria, a Lei de Piso permite que eu exija um duelo de transição — disse ele, a voz rouca, mas firme. — Quer arriscar sua reputação contra um sucateador ou prefere me ver subir a escada que você tanto protege?
Valéria recuou um passo, seus olhos semicerrados. O desafio era uma aposta suicida, e ela sabia disso. Ela sorriu, mas o gesto não alcançou seus olhos. — Você é um tolo, Kaelen. O próximo degrau não é uma escada, é uma sentença.
Ela se retirou, mas o dano estava feito. Kaelen correu para a oficina clandestina. Com as mãos trêmulas, ele extraiu um atuador de alta classe de uma carcaça roubada. Assim que conectou a peça, o Sistema reagiu com faíscas violetas: INCOMPATIBILIDADE DE HARDWARE. AVALIAÇÃO DE ANOMALIA EM CURSO.
Ele não hesitou. Sacrificou parte de seus créditos de sobrevivência para forçar a integração. O mech estremeceu, ganhando uma nova assinatura de energia, mais letal, mas agora ele estava oficialmente marcado como uma anomalia pelo Sistema central.
O placar da arena oscilou. Kaelen subiu mais 500 posições. O ar ao redor começou a vibrar. A 'Lei de Piso' do segundo nível perdeu a integridade. O teto da arena, uma vasta estrutura de engrenagens intertravadas, começou a ceder, soltando faíscas e fragmentos de metal. A Torre tremeu. O teto se abriu, revelando um abismo de engrenagens giratórias. Valéria observava do outro lado da arena, seu sorriso predatório fixo no nome de Kaelen, que brilhava em destaque no placar. O jogo mudou.