Dívida de Sangue e Neon
O ar no hangar cheirava a ozônio, graxa velha e desespero. Kaelen estava enfiado sob o chassi de seu mech, um Série 4 que já deveria ter virado sucata há uma década. Ele ajustava o pistão do joelho esquerdo, sentindo o metal pulsar com a energia residual de uma bateria que, por direito, deveria alimentar um setor inteiro da Torre, não apenas servos hidráulicos remendados.
— O prazo está correndo, Kaelen — a voz do Supervisor Vane ecoou pelo alto-falante, destilando o desdém de quem nunca soube o que era suar por combustível. — Sua cota de energia para a família não foi atingida. Se não subir para a Arena de Prova agora, o suporte vital do seu setor será cortado em trinta minutos. Considere isso um despejo forçado.
Kaelen apertou a chave inglesa até os nós dos dedos ficarem brancos. Ele não respondeu. Não havia dignidade em implorar para um homem que via a vida de sua irmã como um número em uma planilha. Ele se arrastou para fora, subindo na cabine. O painel de controle, um emaranhado de cabos expostos, vibrou. O Sistema, a interface fria que governava a Torre, projetou uma notificação em sua retina: STATUS: DÉBITO CRÍTICO. PROVA DE NÍVEL: OBRIGATÓRIA. RECOMPENSA: PERDÃO DE 5% DA DÍVIDA.
Na Arena de Provas, o 'Punho de Aço', um mech de classe B, girava seus propulsores com precisão insultante. O 'Sucata', nome dado ao mech de Kaelen, tremia sob o peso de sua própria ineficiência.
— Dívida acumulada: 450.000 créditos — a voz sintética do Sistema ecoou. — Tempo restante: 120 segundos.
O Punho de Aço avançou, disparando uma salva de mísseis rastreadores. O Sistema de Kaelen apitou, exibindo um erro crítico em letras vermelhas: ERRO: SINCRONIA DE NÚCLEO INTERROMPIDA. REINICIANDO...
Kaelen não tinha tempo. O impacto era iminente. Ele mergulhou a mão na interface física, forçando uma conexão direta entre seu bio-monitor e o núcleo do mech. A dor foi imediata, como agulhas incandescentes perfurando seus nervos. O Sistema tentou bloquear, mas Kaelen sentiu a brecha: o erro não era uma falha, era um atalho deixado por um antecessor, uma rota oculta que permitia sacrificar o tempo de missão em troca de uma sobrecarga de potência bruta.
O 'Sucata' brilhou com uma luz neon instável, ignorando as leis de física do andar. Com um movimento que desafiava a inércia, Kaelen esquivou-se da salva de mísseis e, em um único impulso, cravou sua lâmina térmica no núcleo do Punho de Aço. A explosão iluminou a arena, transformando a máquina de elite em sucata fumegante.
O placar da arena atualizou-se instantaneamente. Kaelen, posição 8.420. Um salto de 500 posições em menos de dez minutos.
— Interessante — a voz de Valéria ecoou pelo sistema de comunicação aberto, cortando o ruído com uma clareza aristocrática. — Um ratinho de ferro com um sistema legado encontrou um atalho no código de impacto?
Kaelen não respondeu. Seus dedos, calejados pelo óleo, dançavam sobre o console, sentindo o calor do sistema drenando sua energia vital. O custo da manobra era alto, mas o placar brilhava com uma promessa de poder. O sistema piscou em vermelho: 'Dívida pendente. Próximo ciclo em 60 segundos'. Kaelen percebeu que o erro não foi uma falha, foi um convite. Valéria observava o placar de seu camarote, um sorriso frio nos lábios, enquanto os olhos de Kaelen fixavam-se na próxima subida da escada da Torre.