O Andar Proibido
O pátio da Academia de Elite ainda vibrava com a ressonância do duelo. Para os outros, era apenas o fim de uma humilhação esperada; para Leo, era o estopim de uma crise sistêmica. O cronômetro em sua visão periférica marcava 00:54:12 para a expulsão definitiva. Enquanto o Diretor Vane limpava o pó de seu traje com uma calma predatória, seus olhos escaneavam o ambiente, buscando a fonte da irregularidade que Leo acabara de gerar.
Piso 0-A: Acesso instável. Tempo de permanência do portal: 00:10:00.
Uma falha na geometria da Torre, uma cicatriz de luz azulada, abriu-se atrás de um pilar de sustentação. O zumbido de baixa frequência era audível apenas para quem possuía a sensibilidade aguçada pela nova Destreza. Leo sentiu o suor frio escorrer pela espinha. Se ele se movesse, a mudança em seu fluxo de energia seria captada pelo sensor de Vane.
— Você parece inquieto, Leo — a voz de Sofia cortou o ar. Ela estava logo atrás, os olhos fixos no brilho residual que emanava de suas mãos. — Aquela esquiva não foi sorte. Nenhum nível zero se move assim.
Leo ignorou a provocação. Ele precisava de uma distração. Concentrando-se na falha do Sistema, ele forçou o resíduo de energia de sua última manobra para fora, criando uma sobrecarga deliberada no sensor de proximidade de Vane. O Diretor vacilou, seus olhos disparando para o terminal de monitoramento, que agora cuspia erros de leitura. Foi o segundo que Leo precisava. Num movimento fluido, ele disparou em direção à fenda, atravessando o portal instável enquanto o Diretor Vane rugia ordens para os guardas.
O ar no Piso 0-A tinha gosto de ozônio e metal oxidado. Não era um andar de treinamento, mas uma zona de memória fragmentada. Paredes de dados se sobrepunham como lâminas de vidro. O cronômetro marcava 00:52:14. À sua frente, uma estrutura geométrica pulsava com a mesma assinatura que ele usara para enganar Vane. Era um fragmento de memória da Torre, um artefato proibido que ninguém mais parecia notar.
Leo estendeu a mão, mas o Sistema enviou um alerta crítico: Risco de colapso estrutural: 85%. Drenagem de tempo necessária para estabilização: 00:02:00.
Sacrificar dois minutos de sua vida restante era um preço alto, mas a estagnação era a morte certa. Ele aceitou. Uma dor aguda atravessou seu peito enquanto o tempo era drenado, mas, em troca, o fragmento se dissolveu em sua pele. Insight de Nível: Percepção de Padrões de Energia aprimorada. O andar começou a ranger, o teto de dados desmoronando. Leo correu de volta para o portal, sua consciência expandida permitindo que ele visse as falhas na estrutura da Torre como caminhos brilhantes.
Ele emergiu no corredor de acesso restrito, ofegante, com o sistema mascarando sua assinatura instável. O silêncio do corredor foi quebrado pela presença de Sofia. Ela estava parada no caminho, os braços cruzados, a postura de quem não pretendia deixá-lo passar. Seus olhos, afiados como lâminas de obsidiana, não buscavam o rosto de Leo, mas a assinatura de energia que ainda emanava de seus poros.
— Você não deveria estar aqui, Leo — ela disse, a voz destilando uma frieza calculada. — O que você fez lá dentro não é um erro de sistema. É uma violação. Eu vi o brilho. Ninguém que entra como 'Nível Zero' sai com esse tipo de resíduo de energia.
Leo sentiu a pressão daquele confronto. Vane estava rastreando cada centímetro da rede, e o cronômetro de expulsão — 00:48:12 — pulsava em sincronia com o perigo iminente. Sofia deu um passo à frente, bloqueando a única saída. O portal do andar proibido, atrás dele, começava a se fechar em uma espiral de luz decadente. Leo precisava decidir: revelar sua força para derrubar Sofia e se arriscar à expulsão total, ou confiar que a elite ainda tinha fraquezas que ele poderia explorar.