A Sombra da Elite
O ar do Piso 0-A tinha gosto de ozônio e metal frio. Quando Leo atravessou a câmara de descompressão, a realidade ao seu redor parecia vibrar em uma frequência diferente. Sua nova habilidade, Percepção de Padrões de Energia, transformava os corredores blindados da academia em um emaranhado caótico de correntes neon. O fragmento de memória que ele absorvera pulsava em seu núcleo, um peso denso que redefinia seus limites biológicos.
Cronômetro de Expulsão: 00:48:12.
O zumbido predatório dos drones de vigilância do Diretor Vane cortou o silêncio. Leo sentiu o suor frio escorrer. Sua assinatura de energia era um farol brilhante para os sensores da rede. Ele forçou um reboot no sistema, drenando dois minutos preciosos de sua vida restante para camuflar sua aura no ruído estático da rede. O processo rasgou suas fibras nervosas, mas o deixou invisível aos radares. O terminal piscou em vermelho sangue: Anomalia detectada em movimento. Ele não era mais apenas um Nível Zero; ele era um erro de sistema em fuga.
Antes que pudesse se esconder nas sombras das alas inferiores, uma figura bloqueou o caminho. Sofia. A prodígio da elite não usava palavras; a aura de pressão que emanava dela forçava o ar a vibrar, uma manifestação gelada de sua linhagem que tentava esmagar a vontade de quem estivesse à frente.
— Você está diferente, Leo — a voz dela era um corte preciso. Ela deu um passo à frente, seus olhos fixos na base de seu pescoço, onde a energia da Torre ainda deixava um rastro tênue. — Aquele brilho... não é a marca de um Nível Zero. É algo que nem os instrutores conseguem rastrear. O que você roubou lá dentro?
Leo sentiu o cronômetro em sua visão. Ele usou sua nova percepção para escanear a aura de Sofia. Viu a falha: um tremor instável na base de seu fluxo, onde a expectativa sufocante de sua linhagem criava uma racha. Ele não precisava lutar; ele precisava expor a vulnerabilidade dela.
— Você fala de roubo enquanto sua própria linhagem te mantém em uma coleira, Sofia? — Leo rebateu, a voz firme apesar do tremor interno. — Você não está aqui por causa da Torre. Está aqui porque tem medo de que, se eu subir, a sua perfeição perca o sentido.
Sofia recuou, o choque momentâneo em seu rosto provando que ele acertara o alvo. Mas o cerco estava se fechando. O zumbido dos drones de Vane aumentou de tom. O Diretor, em sua caçada de limpeza, estava próximo. Leo precisava de uma distração. Ele arremessou o Fragmento de Memória, agora instável, para dentro de um terminal público desativado, sobrecarregando o circuito com o resto de sua energia. O terminal explodiu em faíscas estáticas.
— Um resquício de processamento ilegal — a voz metálica de Vane ecoou pelo corredor, atraída pela isca. O Diretor passou por Leo como se ele fosse apenas parte da parede, seus olhos cibernéticos focados na destruição do terminal.
Leo aproveitou a brecha e correu. Ao chegar ao seu dormitório, exausto e com a energia drenada, uma notificação oficial brilhou na porta: Ordem de Despejo: Família Silva. O sistema reagiu instantaneamente, emitindo uma nova missão de alta prioridade: 'Proteja o Legado'. O cronômetro de expulsão zerou, mas uma nova contagem regressiva começou. A ascensão não era mais uma escolha; era uma guerra por sobrevivência.