O Custo da Ascensão
O ar na sala de detenção parecia subitamente rarefeito, saturado com o zumbido metálico dos campos de contenção da Academia. Leo arquejou, sentindo o rastro de energia gélida que o ponto de Destreza deixara ao se fundir com seus tendões. Seus nervos, antes acostumados à estagnação do Nível Zero, agora vibravam com uma sensibilidade insuportável. Ele podia ouvir o tique-taque ritmado do cronômetro de expulsão, projetado em um holograma azulado que flutuava no centro da sala: 00:52:14.
Seus dedos, antes trêmulos, moviam-se agora com uma precisão cirúrgica. Ele fechou o punho e o ar pareceu estalar sob sua pressão. Mas a euforia durou pouco. Um alerta escarlate, agressivo e intrusivo, começou a piscar na periferia de sua visão: [ALERTA: ANOMALIA DE FLUXO DE ENERGIA DETECTADA. RASTREAMENTO DE REDE DA ACADEMIA ATIVO.]
Leo sentiu um calafrio. O Diretor Vane não estava apenas expulsando-o; ele estava vigiando a própria estrutura da academia para garantir que nenhuma anomalia escapasse do sistema. Se Vane encontrasse a origem daquele ganho, Leo seria apagado da rede, um erro estatístico descartado. Ele se aproximou do console central, onde sua nova percepção lhe permitia enxergar o que antes era apenas ruído: uma falha na frequência da rede da Torre que alimentava os sensores da sala. Não era um erro de sistema; era uma brecha de design. Com um movimento fluido, Leo não tentou hackear a segurança; ele a redirecionou, injetando o excedente de energia que seu corpo rejeitava na própria rede da Torre, mascarando sua assinatura como um erro de leitura do próprio sistema.
A porta deslizou com um chiado hidráulico, revelando Sofia. Ela não trazia a habitual expressão de indiferença; seus olhos brilhavam com uma curiosidade predatória.
— O Diretor Vane sentiu uma distorção na rede, Leo — ela disse, fechando a porta. — E o rastro termina exatamente aqui, em um Nível Zero que deveria estar suplicando por perdão.
Leo manteve as mãos nos bolsos, a interface piscando em sua retina. Risco de exposição: Crítico.
— Talvez a rede esteja tão velha quanto as regras desta academia, Sofia — ele respondeu.
Sofia não respondeu com palavras. Em um movimento rápido, ela sacou uma adaga de treinamento feita de luz sólida e investiu. O golpe foi desenhado para humilhar. Antes, ele teria sido atingido; agora, o tempo pareceu desacelerar. O brilho da lâmina era legível, cada milímetro do arco de ataque fragmentado em sua mente. Leo desviou o busto com uma fração de milímetro de margem, sentindo o calor da luz sólida roçar sua pele. O choque de Sofia foi palpável quando ela percebeu que ele não apenas esquivou, mas antecipou o movimento.
Antes que ela pudesse reagir, a porta foi aberta com violência. O Diretor Vane entrou, seus passos ecoando com uma precisão cirúrgica. Ele não olhou para Leo, mas para o espaço vazio logo acima de seu ombro esquerdo, onde o Sistema ainda pulsava.
— O nível de energia nesta sala está instável — disse Vane, sua voz desprovida de emoção. Ele caminhou até o centro, a bengala de rank A batendo no chão. — Sinto uma leitura residual, um desvio de 0.02% nas métricas da rede.
Leo sentiu o suor escorrer por sua espinha, forçando-se a manter o tom plano. O Sistema emitiu um sinal de alerta vermelho intenso: Rastreamento detectado. O chão sob seus pés começou a tremer, uma vibração profunda que indicava que a própria Torre estava reagindo àquela pressão. O tique-taque do cronômetro travou em 00:45:00, e atrás de Vane, uma fenda luminosa começou a se abrir nas paredes de concreto, revelando um novo andar que não deveria existir.