O Duelo das Sombras
O metal do Sucata-09 guinchou sob a pressão da chave inglesa, um protesto agudo que Kael tentou ignorar. O painel de status piscava um vermelho agressivo: -450.000 créditos. A punição do sistema pela sua subida ao Top 500 não era apenas um número; era um dreno constante, uma sangria de energia que tornava cada segundo de operação um luxo que ele não podia pagar. Se não estabilizasse o núcleo em cinco minutos, a Torre não apenas o multaria — ela o deletaria como um arquivo corrompido.
— Parado aí, sucateiro.
A voz de Lívia Aço cortou o ar como lâmina. Ela surgiu no hangar, ladeada por seis drones de transmissão que zumbiam com luzes estroboscópicas. O feed holográfico projetado no ar já exibia o rosto de Kael para milhares de espectadores. Ela não queria apenas uma briga; queria que o mundo visse o "bug" do seu mech — a forma como ele contornava as limitações do sistema para rodar além da capacidade permitida.
— Desafio aceito ou banimento imediato — Lívia sorriu, revelando dentes brancos e crueldade pura. — A audiência está impaciente.
Kael sentiu o suor frio. Os drones iniciaram a contagem: dez, nove, oito... Ele aceitou o convite, não por bravura, mas por necessidade. A arena de testes da Torre o aguardava, um cenário de ozônio e metal queimado onde cada golpe de Lívia drenava seus créditos como sangue de uma ferida aberta. O mech dela, uma estrutura polida de irídio, avançou como um predador. O primeiro pulso cinético fez o Sucata-09 vibrar até os parafusos da carcaça.
— Vamos, Kael — a voz de Lívia ecoou pelo canal aberto. — O sistema diz que você é uma anomalia. Mostre-me se é um erro de cálculo ou apenas sorte.
Kael ignorou a provocação. O novo dissipador de Classe-B, fruto de seu hack, mantinha o motor estável, embora o termômetro interno estivesse em um âmbar perigoso. Enquanto desviava de uma lâmina térmica que cortou o concreto, ele injetava código bruto no rastreador de Lívia. Ele não podia vencer pela força bruta, mas podia vencer pela desinformação. Injetou um loop de feedback no rastreador dela, forçando o sistema a reportar 'falha técnica' no chassi da elite.
O alerta de 'Instabilidade de Rede' ecoou, e o zumbido dos motores de Lívia cessou abruptamente. O sistema de segurança, detectando a interferência, forçou um reset. Lívia, estática como obsidiana, olhou para o próprio painel, frustrada. Mas, no canto da visão de Kael, o portão monumental do Nível 2 começou a vibrar. Uma luz azul-pálida, antiga e instável, vazava pelas frestas. O temporizador marcou trinta segundos.
— Acha que a Torre protege você? — Kael murmurou, sua mão pairando sobre o comando de ignição de emergência.
Lívia avançou, mas o sistema travou os movimentos de ambos. O portão estava se abrindo, uma rota que ninguém mais via, uma memória fragmentada do que o mentor de Kael descobrira antes de ser apagado. Kael olhou para o cronômetro. Vinte segundos. Se ficasse, seria exposto. Se entrasse, seria um fugitivo. Ele não hesitou. Com um rugido do motor, o Sucata-09 disparou em direção ao abismo azul, deixando Lívia e o status quo da Torre para trás.