O Piso do Expurgo
O teto do Piso de Expurgo não desabava; ele se desintegrava em pixels de luz fria, o código-fonte da Torre se soltando como pele morta. Kael sentiu o impacto da descompressão antes mesmo de atingir o solo do Nível 4. Seus pulmões arderam, uma dor aguda indicando que sua vitalidade caíra para irrisórios 8%. O relógio do Sistema, um tique-taque mental que martelava contra seu crânio, marcava onze minutos e quarenta segundos para o colapso total da estrutura.
— Administrador não autorizado detectado. Penalidade de estabilidade: iminente — a voz sintética do Sistema ressoou, desprovida de humanidade.
Kael não podia se dar ao luxo de desmaiar. Ele se arrastou pelos destroços, sentindo o gosto metálico de sangue e poeira. A traição de Mestre Vane queimava mais do que as feridas físicas; ele fora apenas uma chave biológica, um descartável que deveria ter morrido ao abrir a porta para o Nível 5. Mas ele estava vivo, e a Torre era uma fera ferida que ele podia domar. Com as mãos trêmulas, ele forçou uma conexão direta com o núcleo do Nível 4. O Sistema resistiu, disparando arcos de eletricidade estática que chamuscaram suas vestes. Kael ignorou o cheiro de carne queimada. Ele não tinha mais ranking acadêmico — seu registro fora limpo, tornando-o um fantasma no sistema.
O ar no nível tornou-se denso, carregado de ozônio. Diante de Kael, o espaço se distorceu até que o holograma de Mestre Vane se materializou. O instrutor não parecia preocupado com o colapso; ele observava Kael com a curiosidade fria de um cirurgião.
— Você é mais resiliente do que os registros da Academia previam, Kael — a voz de Vane reverberou. — O Piso de Expurgo serviu ao seu propósito. Sua 'chave biológica' foi o catalisador perfeito para fragmentar o protocolo de segurança do Nível 5. A hierarquia da Academia é uma farsa, e você acabou de provar isso ao mundo.
Kael sentiu o sangue ferver. Ele se levantou, a visão tremendo nas bordas. — Você não queria salvar ninguém. Você só queria o acesso. Você me usou como um detonador para derrubar os seus próprios rivais e assumir o controle do dreno de energia.
— A moralidade é um luxo para os que já estão no topo, garoto — Vane cortou a comunicação. Kael desligou o terminal, recusando-se a ser uma ferramenta. Ele começou a hackear o protocolo de acesso do Nível 5, ignorando o aviso de vitalidade que piscava em vermelho escuro.
Na câmara de acesso, Lívia surgiu das sombras, o uniforme da elite manchado pela poeira da ruína. Seus olhos injetados pela humilhação na arena buscavam vingança. — Você não vai passar, Kael. Não com o lixo que você carrega na alma.
Ela tentou usar a autoridade de seu ranking para sobrepujar a interface, mas Kael foi mais rápido. Ele não usou força bruta; ele usou o privilégio de administrador para drenar a energia de elite que sustentava a aura de Lívia. O poder dela dissipou-se como fumaça, deixando-a impotente enquanto ele abria a porta proibida.
Kael penetrou no Nível 5. O local não era uma sala, mas uma ferida aberta na realidade. Ele caiu no centro do núcleo, sentindo cada grama da pressão gravitacional que a Academia tentava, inutilmente, manter contida. Nove minutos restavam. Ele estendeu a mão para o pilar de luz que pulsava no centro da câmara. Sua pele queimou ao entrar em contato com a interface pura.
— Administrador não autorizado detectado — a voz da Torre ecoou. — Integridade do sistema: 12%.
Kael sentiu sua consciência ser sugada para dentro do fluxo de dados. Ele viu a verdade crua: a Torre não era um teste de mérito, era um filtro biológico. Enquanto ele fundia sua mente ao sistema, o mundo lá fora começou a tremer. O ranking global da Academia, o pilar de toda a sociedade, começou a se apagar, linha por linha, sob o comando do novo administrador.