Confronto no Topo
O tique-taque do Sistema não era um som; era uma lâmina serrilhada raspando contra a minha espinha. 12:00. 11:59. 11:58. O cronômetro do Piso de Expurgo flutuava no canto da minha visão, uma contagem regressiva para a minha própria desintegração ou para a queda da Academia. Eu não era mais o estudante descartável que buscava aprovação; eu era um erro de sistema, um administrador não autorizado com a Essência de Memória fundida ao meu núcleo.
Lívia estava à minha frente, no centro do Pátio Central, cercada pela guarda de elite. O desprezo habitual em seu rosto dera lugar a uma paranoia febril. Ela sabia. Ela sentia a instabilidade na rede de energia que sustentava sua linhagem.
— Kael — a voz dela, amplificada pelos alto-falantes da Academia, vibrou com um ódio contido. — Você é um fantasma que esqueceu de desaparecer. Guardas, eliminem o intruso. Sem julgamento.
Os soldados avançaram, suas lâminas de luz zumbindo. Eu não recuei. Invoquei o Direito de Ascensão, um protocolo arcaico que a Academia não podia ignorar sem expor sua própria farsa. O ar estalou. O sistema, forçado pela minha autoridade, travou a execução. A multidão de estudantes, antes silenciosa, agora sussurrava, observando o foragido desafiar a prodígio.
— Não hoje, Lívia — respondi, minha voz cortando o silêncio. — Se você quer me apagar, terá que me vencer na arena. A lei da Torre exige prova pública.
O ambiente na Arena de Duelos distorceu-se. Assim que cruzamos o limiar, o Piso de Expurgo foi ativado. A Torre começou a drenar a energia de todos, exceto a minha. Lívia, acostumada ao suprimento inesgotável da elite, cambaleou quando sua aura oscilou. O pulso gravitacional que emanava do chão, alimentado pela minha conexão direta com o núcleo, fez seus joelhos cederem. A elite, intocável até segundos atrás, agora parecia frágil, sugada pela própria fundação que os elevava.
Eu não precisava de elegância. Precisava de impacto. Avancei, ignorando a dor aguda da minha vitalidade em 8%. O Sistema projetava a vulnerabilidade de Lívia em vermelho sangue. Quando ela tentou um golpe de energia pura, desviei, sentindo o atrito rasgar meus músculos. Contra-ataquei com um golpe preciso que estilhaçou sua aura defensiva, revelando ao público a fragilidade da tecnologia de dreno da Academia.
No canto da arena, Mestre Vane observava. Ele não olhava para Lívia, mas para o núcleo da Torre. A sobreposição de dados do meu Sistema revelou a verdade: Vane não estava protegendo a Academia; ele estava alimentando o dreno, usando Lívia como combustível para abrir um caminho para o Andar 5 que ele mesmo não conseguia acessar. Ele tocou meu ombro, uma pressão magnética que forçou meu Sistema a se estabilizar, drenando ainda mais minha energia vital.
— Você é o vírus que eu selecionei, Kael — Vane murmurou, sua voz carregada de uma crueldade calculada. — O sistema precisa de alguém para derrubar a fachada antes que a elite perceba que o dreno é uma prisão.
Com a vitalidade no limite, finalizei o duelo. Lívia caiu, derrotada pela própria arrogância. As paredes da arena tornaram-se translúcidas, transmitindo para todos os estudantes a imagem do dreno de energia: feixes de luz azul saindo dos alunos e subindo para os níveis superiores. O caos tomou conta da Academia. O Piso de Expurgo começou a desintegrar a estrutura. Eu tinha apenas minutos antes que o setor inteiro colapsasse. A verdade estava exposta, mas o custo da minha ascensão estava apenas começando. O Sistema emitiu um alerta final: o Andar 4 estava aberto, mas o Piso de Expurgo estava prestes a colapsar, transformando a vitória em uma corrida contra a morte.