O Confronto de Lívia
O Andar de Execução não era um cenário; era uma guilhotina mecânica. O teto de engrenagens de bronze descia com uma precisão sádica, reduzindo o espaço vital a cada segundo. A gravidade, antes estável, colapsou em um pêndulo caótico, arremessando Kael contra uma coluna de suporte enquanto Lívia, flutuando em um desequilíbrio forçado, tentava desesperadamente estabilizar sua aura de elite.
— Você é um erro de processamento, Kael! — A voz de Lívia cortou o chiado estático dos alto-falantes. Ela tentou invocar uma lâmina de luz, mas apenas faíscas pálidas e instáveis escaparam de suas mãos. O sistema a marcara como anomalia; sua autoridade de seita estava sendo drenada pela purga.
Kael sentiu a pulsação frenética em seu braço. As cicatrizes da Rota dos Esquecidos brilhavam com um azul febril. A dor não era apenas física; era uma interface. Enquanto o teto descia, ele percebeu a verdade: o sistema não estava apenas tentando purgar o andar, estava reconfigurando a arquitetura para isolar a anomalia. Ele.
— O sistema não está te protegendo, Lívia — Kael forçou o corpo a se levantar, agarrando-se a uma grade enferrujada enquanto o teto se aproximava a poucos metros. — Ele está tentando nos apagar para corrigir o código. Você é apenas um dano colateral no meu upgrade.
Lívia, com o traje cerimonial da Seita do Sol Ascendente rasgado, tentou se colocar de pé. Seus olhos, antes cheios de arrogância, agora refletiam o pavor de ser esquecida.
— Posso te dar acesso aos arquivos da Seita, recursos, um lugar no topo da pirâmide — sibilou ela, a voz distorcida pela estática. — Só me dê o código de override do seu fragmento.
Kael deu um passo à frente, ignorando a náusea. Ele agarrou o queixo de Lívia, forçando-a a olhar para o próprio reflexo no metal polido do chão, onde o sistema projetava seu status em letras vermelhas: 'ANOMALIA: DEGRADADA'.
— Você não entende. A Torre não está me punindo. Ela está me usando para deletar o que não serve mais. Você já foi substituída.
O sistema emitiu um alerta ensurdecedor. Kael sentiu o calor do Fragmento de Memória pulsar em seu peito, uma brasa que queimava através de sua túnica. Ele tocou a parede metálica. A dor foi imediata, uma corrente elétrica que iluminou as cicatrizes em seus antebraços. Elas não eram marcas de carne, mas caracteres de um código de administração. Aquilo não era dano; era acesso.
O chão sob seus pés se abriu. Kael foi arremessado para a zona de transição: o Andar Fantasma. O ar tinha gosto de ozônio. O cronômetro em sua retina marcava 58 segundos. Silhuetas distorcidas, guardiões que replicavam sua própria postura, começaram a se condensar a partir de pixels soltos. O sistema estava usando seus dados de combate contra ele.
— Não tente lutar contra a geometria, Kael. O Andar Fantasma é um espelho — a voz de Mestre Vane soou no comunicador, urgente. — Use o Fragmento!
Kael puxou o artefato. A luz azulada cortou a penumbra. Ele não bloqueou o golpe do guardião; ele reescreveu a lógica do espaço ao seu redor, forçando a parede a se dobrar. O sistema, confuso pela autoridade do Fragmento, abriu o portão para o próximo nível. Kael atravessou, deixando a purga para trás, enquanto o sistema anunciava sua ascensão para o ranking 2.500. Ele olhou para os braços: as cicatrizes brilhavam com uma geometria impossível. Ele não era mais apenas um sobrevivente; ele era um administrador em potencial, e a Torre, em sua tentativa de corrigi-lo, acabara de lhe entregar as chaves do reino.