O Desafio do Mestre Vane
O tic-tac do cronômetro da Torre não era apenas um lembrete; era uma contagem regressiva para a minha exclusão. Faltavam vinte e quatro minutos para que o acesso ao Andar Fantasma fosse revogado, transformando minha única rota de progressão em um beco sem saída. O corredor de arquivos obsoletos, onde eu buscava abrigo, cheirava a ozônio e poeira estagnada — o cheiro de um sistema que apodrece por dentro.
— Você caminha como quem carrega um segredo, mas respira como quem já aceitou a sentença de morte. — A voz de Mestre Vane ecoou, seca. O arquivista surgiu das sombras, o manto esfarrapado escondendo o desdém que ele reservava aos coletores.
Eu tencionei os músculos, a mão descendo para a adaga. O ranking público da Torre brilhava no canto da minha visão: Kael, Posição 4.892. Um número patético para a elite, mas um alvo pintado em minhas costas para a Seita do Sol Ascendente. Lívia não deixaria uma anomalia como eu subir sem tentar me apagar.
— A seita está caçando anomalias, Vane — respondi, firme. — Se veio me entregar, seja rápido. O cronômetro não espera por carrascos.
Vane sorriu, um gesto amargo. — Entregar você? Eu ajudei a desenhar a lógica deste sistema, Kael. Eu vi quando ele parou de ser um instrumento de ascensão e se tornou um filtro de extração. Você não é um erro; você é a única variável que eles não conseguiram prever.
O arquivista estendeu a mão, revelando um frasco com uma essência pulsante. — O Andar Fantasma não é um teste de força. É um repositório de dados proibidos. Se você entrar e trouxer o fragmento de memória que escondi no núcleo, terá a prova de que a Torre não foi construída para nos elevar, mas para nos consumir.
Aceitei o frasco. O peso do Nível 1 vibrava em meus ossos, uma promessa de poder que parecia pequena demais diante da pressão pública. Encarei o portal, uma fenda instável que não constava em nenhum mapa. 28 minutos. Atravessei a fenda, deixando o mundo conhecido para trás.
O Andar Fantasma era uma distorção. Paredes de código corrompido tremulavam como estática de um espelho quebrado. A cada passo, o sistema tentava purgar minha presença, drenando minha energia vital. Forcei a visão de sistema, ignorando o cansaço. Onde os outros viam obstáculos, eu via falhas de renderização. Detectei uma anomalia na geometria do pilar central e avancei, sacrificando a essência de Vane para estabilizar minha própria estrutura.
Alcancei o núcleo. O fragmento de memória não era apenas um registro; era uma planta técnica. A Torre era uma máquina de sacrifício humano, alimentada pela energia dos que tentavam subir. Quando retornei ao ponto de extração, Vane me esperava com um olhar de urgência mortal.
— Você conseguiu — murmurou o mentor. — Mas o sistema já registrou a violação. A Torre não vai apenas deletar sua rota, Kael. Ela vai deletar você.
O cronômetro brilhou em um vermelho doentio: 04:12. Senti a realidade ao meu redor começar a se fragmentar. O sistema iniciou a purga. Eu precisava de mais do que apenas subir; precisava quebrar o sistema antes que fosse consumido por ele.