A Queda da Máscara
O café na mesa de fórmica estava frio, uma película oleosa cobrindo a superfície escura. Bia Rocha não sentia o gosto, apenas o peso do pendrive no bolso do casaco, um objeto de plástico barato que agora valia mais que a própria vida. O relógio de pulso marcava 19:42. Faltavam exatamente dez horas e dezoito minutos para o expurgo automático do servidor central. Depois disso, o vídeo da agonia de Lucas Menezes se tornaria um fantasma digital.
À sua frente, Marcos, o editor do Voz da Fé, tinha os dedos entrelaçados com tanta força que os nós estavam brancos. Ele não olhava para Bia, mas para a porta do estabelecimento, como se esperasse que a polícia ou os seguranças do hospital irrompessem a qualquer segundo.
— Você não entende, Bia — ele sussurrou, a voz falhando. — Não é sobre o que está no vídeo. É sobre quem está no vídeo. O Dr. Arnaldo não é apenas um médico. Ele é o pilar que sustenta a basílica, a prefeitura, a nossa própria existência aqui.
Bia inclinou-se para frente, a voz baixa, cortante como um bisturi.
— Ele matou um homem consciente, Marcos. Ele desligou o suporte de vida enquanto o paciente ainda respirava, apenas para liberar o leito para o transplante do filho do deputado. Isso não é política. É crime.
Marcos deslizou um envelope pardo pela mesa. Não continha pautas ou documentos. Bia abriu-o e sentiu o ar abandonar seus pulmões. Era uma foto de sua irmã, Júlia, saindo da faculdade em Curitiba. A imagem estava datada daquela manhã. O ângulo era de uma câmera de segurança, profissional, invasiva.
— Eles sabem onde ela mora, Bia — Marcos disse, a voz subitamente vazia de esperança. — Eles sabem o horário das aulas, o caminho que ela faz, quem são os amigos dela. Se esse vídeo for ao ar, o hospital não vai apenas processar o jornal. Eles vão apagar a sua família. O silêncio é o preço da segurança dela.
O celular de Bia vibrou sobre a mesa. O visor iluminou-se com uma mensagem de um número desconhecido: “O futuro dela é uma escolha sua. 10:15 restantes.”
Bia levantou-se, a cadeira raspando no chão com um som estridente. O pânico era uma névoa, mas ela forçou-se a atravessá-la. Ela não podia ceder, mas não podia arriscar Júlia. O custo da verdade havia se tornado insuportável.
— Você foi ameaçado? — ela perguntou, embora soubesse a resposta.
— Fui avisado — Marcos corrigiu, levantando-se e saindo sem olhar para trás.
Bia ficou sozinha no estabelecimento. O silêncio da cidade de peregrinação parecia opressor, carregado pelo peso do pacto de silêncio que mantinha o hospital e a basílica em simbiose. Ela saiu para o estacionamento, onde a luz fria dos postes de mercúrio criava sombras longas e distorcidas. O celular tocou novamente. Era Arnaldo Viana.
— O jornalista é um homem sensato, Bia — a voz de Arnaldo era calma, quase paternal. — Você, por outro lado, continua a confundir justiça com autodestruição. O que você tem é um arquivo digital que será deletado em dez horas. O que eu tenho é o endereço da sua família na Vila Verde. Pense bem antes de dar o próximo passo.
Bia desligou, a náusea subindo pela garganta. Ela precisava de um plano que não dependesse de terceiros comprados. Ela correu para a capela anexa à Basílica, o único lugar onde a penumbra das velas barrocas oferecia um disfarce temporário contra as câmeras de reconhecimento facial.
Enquanto o upload para uma rede descentralizada rastejava — 12%, 15% — o celular vibrou novamente. “Onde está sua mãe, Bia? A noite na gala está apenas começando.”
O sangue fugiu do seu rosto. Arnaldo não estava apenas a caçando; ele estava atacando seu ponto de maior vulnerabilidade. Ela digitou uma mensagem de rendição para Arnaldo, um blefe desesperado para ganhar tempo. Enquanto o sistema de segurança a identificava como ameaça nível 1, Bia caminhou em direção à entrada da gala de inauguração. Ela não entregaria o pendrive. Ela o levaria para o centro do poder. A ruína de Arnaldo aconteceria sob os olhos de todos, ou ela morreria tentando.