O Último Recurso
O ar noturno de Santa Fé não trazia alívio, apenas o odor acre de incenso barato misturado à exaustão química dos geradores do hospital. Dez horas e dezoito minutos. O contador no servidor central era uma guilhotina digital, e o fio estava esticado ao limite. Bia ajustou o vestido de gala, uma peça emprestada cujas costuras pareciam arames farpados contra sua pele. O pendrive, escondido sob a fita da coxa, pesava mais que uma arma. Era sua única moeda de troca, e o preço de carregá-lo era a segurança de sua mãe, agora sob vigilância ostensiva dos capangas de Arnaldo.
Ela parou diante da entrada principal. A fachada do Hospital-Santuário, banhada por holofotes, parecia um monumento de mármore e sangue. Bia apresentou o convite roubado de uma doadora ausente. O segurança, um homem cujo rosto era uma máscara de lealdade cega, passou o leitor óptico pelo cartão. O bipe soou, curto e seco.
— Seja bem-vinda, Sra. Lúcia — disse ele, sem desviar o olhar do monitor.
Bia assentiu, o queixo erguido para esconder o tremor nos lábios. No instante em que seus saltos tocaram o mármore polido do saguão, seu celular vibrou contra a palma da mão. O alerta de Acesso Não Autorizado piscava em vermelho. O sistema de reconhecimento facial a identificara. O jogo de gato e rato terminara; ela era agora a caça em campo aberto.
Dentro do salão, o ar-condicionado gélido soprava uma brisa estéril, carregada de perfume caro e medo contido. No palco, sob o teto de vidro da nova ala, o Dr. Arnaldo Viana ajustava o microfone. Sua voz, amplificada, falava sobre "milagres da ciência" e "o sacrifício necessário para o progresso". Bia observou a elite da cidade — juízes, empresários, políticos — rindo enquanto bebiam champanhe, alheios à carne e ao sangue que fundamentavam aquele luxo.
Ela avistou o Padre Samuel perto de uma coluna de mármore. O olhar do religioso varria o salão com a precisão de um predador. Bia aproximou-se, a voz cortante, baixa o suficiente para não atrair atenção, mas carregada de veneno:
— O senhor acredita mesmo que o perdão pode ser comprado com esta ala, Padre? Ou é apenas uma comissão sobre a vida de Lucas Menezes?
O Padre Samuel não vacilou. Seus olhos endureceram em uma máscara de frieza institucional.
— Você não entende a ordem das coisas, Beatriz. O hospital é o alicerce desta cidade. Se o preço de manter a fé e a infraestrutura funcionando for o sacrifício de um homem, que assim seja. Não tente destruir o que você não pode compreender.
Nesse momento, Arnaldo fez contato visual através da multidão. Ele não gritou. Apenas inclinou a cabeça, um sinal quase imperceptível. Seguranças começaram a convergir para a posição de Bia. Ela não tinha saída convencional. O único caminho era o palco.
Bia correu. Ignorando os olhares, desviou de um garçom, causando um estrondo de taças de cristal que ecoou como um tiro no salão. O pânico de Arnaldo foi visível quando ele a viu investindo contra a cabine de som. Bia arrombou a porta técnica, empurrando o operador. Seus dedos, trêmulos, inseriram o pendrive no terminal principal. O sistema de segurança disparou o protocolo de bloqueio, mas o vídeo da cirurgia já estava sendo transmitido. A imagem de Lucas Menezes, consciente e aterrorizado na mesa de operação, surgiu nos telões gigantes da gala, transformando o riso da elite em um silêncio sepulcral.
Enquanto o vídeo corria, Bia ouviu o barulho de botas pesadas subindo as escadas. O Padre Samuel, na porta, bloqueou qualquer tentativa de fuga. Bia estava encurralada, mas a verdade, crua e sangrenta, agora brilhava diante de todos.