O Vídeo Perdido
O som dos passos de Bia sobre o calçamento irregular da cidade de peregrinação não era apenas um ruído; era um metrônomo de desespero. Atrás dela, o farol de um sedã preto varria as fachadas barrocas, iluminando os nichos dos santos como se buscasse um culpado em cada sombra. Ela apertou o cartão de memória contra a palma da mão, um pedaço de plástico que pesava mais do que a própria consciência. O relógio no visor do seu celular, trincado pela queda na pensão, brilhava com uma clareza cruel: 11 horas e 58 minutos para a purga definitiva do servidor do Hospital Santa Fé.
Cada esquina era uma armadilha. A cidade, com suas luzes votivas e promessas de cura, havia se tornado um labirinto de vigilância hostil. Bia não podia voltar para casa; a segurança de Arnaldo já tinha revirado seus pertences, deixando um rastro de intimidação que agora pesava sobre sua família. Ela dobrou um beco estreito, onde o cheiro de incenso se misturava ao odor metálico de esgoto, e viu a placa neon piscando de um cybercafé decadente. Era o último refúgio possível antes de ser varrida do mapa pelos homens de Viana.
O interior do local cheirava a ozônio e café queimado. Bia sentiu o suor frio escorrer pelas costas ao plugar o cartão no terminal de Guto, um ex-técnico de sistemas do hospital que vivia nas sombras após ser demitido por curiosidade excessiva.
— Você não deveria estar aqui, Bia — Guto murmurou, os dedos voando sobre o teclado mecânico. Ele tremia ao ver o logotipo do hospital na tela. — Se Arnaldo detectar essa intrusão, eles vão apagar você.
— Apenas abra o arquivo — ela ordenou, a voz rouca. A mão de Bia, ainda trêmula, apertava o balcão. Ela sentia o volume da amostra biológica no bolso da jaqueta; um pedaço de tecido que provava o impossível.
O cursor girou. De repente, a tela mudou para um degradê de cinza e azul. O sistema de segurança do hospital iniciou o contra-ataque. Uma barra de download surgiu: 12%. O tempo saltou para 11:38:00.
— Eles bloquearam o acesso remoto — Guto praguejou, a pele pálida sob a luz dos monitores. — É uma chave de hardware. Preciso de uma conexão direta com o hub ou não vou conseguir descriptografar o conteúdo antes que o expurgo limpe tudo.
O ar no cybercafé tornou-se irrespirável. O relógio piscava em um vermelho clínico: 12:00:45. A luta digital era uma dança de morte, e o cerco de Arnaldo Viana estreitava-se a cada segundo.
— Consegui — murmurou Guto, a voz falhando. — Mas não foi uma invasão, Bia. Foi uma porta aberta. Alguém queria que esse arquivo fosse enterrado, não deletado.
O arquivo, intitulado "L.Menezes_Cirurgia_Final", abriu-se com um estalo metálico. A imagem era granulada, iluminada pela luz fria dos focos cirúrgicos. Lucas Menezes estava ali, deitado, com o peito aberto em uma incisão que ainda sangrava. Seus olhos buscavam o teto, o reflexo do desespero puro espelhado na pupila dilatada.
— Doutor, o paciente... ele está consciente — a voz de um residente soou ao fundo, trêmula.
A câmera girou, focando no Dr. Arnaldo Viana. Ele não usava máscara. Seu rosto era uma máscara de eficiência glacial. Sem olhar para o paciente, Viana fez um gesto vago, cortante, para a equipe de anestesia.
— O tempo do deputado é agora. Interrompam o suporte de vida. O doador não precisa mais de oxigênio — disse Viana, com a frieza de quem ordena a troca de uma lâmpada.
Bia sentiu o sangue congelar. A prova não era apenas negligência; era um assassinato premeditado, executado com a precisão de um açougueiro. Ela copiou o arquivo para um pendrive e desconectou o terminal segundos antes da segurança invadir o cybercafé.
No beco dos fundos, o jornalista local a esperava, o motor do carro ligado. Bia entregou-lhe o pendrive com as mãos trêmulas, esperando a redenção. O homem, porém, olhou para o dispositivo como se fosse uma granada sem pino.
— Você não entende, Bia — disse ele, a voz carregada de uma derrota amarga. — Se eu publicar isso, o hospital não cai. Eu caio. E você cai. Eles me ligaram, Bia. Sabiam que eu estava aqui. Se essa matéria sair, sua família será o alvo. Eles vão apagar sua mãe de qualquer registro de atendimento.
Ele devolveu o pendrive, recusando-se a ser o instrumento da verdade. Bia ficou sozinha no beco. Ela olhou para o celular: 12 horas para o expurgo. Ela estava caçada, isolada e com o destino de todos em suas mãos, enquanto o relógio continuava sua contagem implacável rumo ao abismo.