A Enfermeira Fantasma
O ar na pensão cheirava a mofo e desinfetante barato, uma máscara inútil para o odor metálico da amostra biológica que Bia Rocha carregava sob a jaqueta. Eram 03:14 da manhã. O relógio digital em seu pulso, sincronizado com o servidor do Hospital Santa Fé, piscava em vermelho: 12:00:00. O tempo restante antes do expurgo automático dos logs de Lucas Menezes.
Bia trancou a porta do quarto 4-B. Seus dedos, calejados pelo hábito de conferir prontuários, tremiam. Ela não acendeu a luz. O brilho alaranjado dos postes da rua, filtrado pela cortina, desenhava sombras longas no quarto. Antes de sair para o hospital, ela deixara um fio de cabelo na soleira, preso por uma gota de cera. Agora, o fio estava no chão. A cera não se soltara; fora removida. Na moldura da porta, um círculo cortado por uma linha vertical — o símbolo da segurança do hospital para "alvo localizado".
Eles não a seguiam; eles a aguardavam.
Passos pesados ecoaram no corredor de madeira. Não eram hóspedes. Bia ignorou a mochila e correu para o quarto 204. Ela bateu três vezes — o código de emergência que a enfermeira Eliane conhecia. A porta abriu um milímetro, revelando um rosto pálido, envelhecido pelo terror.
— Eliane, abre — sussurrou Bia, a voz cortante.
Bia entrou e trancou a porta. Eliane recuou, as mãos escondidas sob um cobertor puído.
— Você não deveria estar aqui, Bia. Eles sabem de tudo. Se eu falar, minha mãe... — Eliane soluçou, o corpo colapsando contra a parede.
Bia segurou os ombros da mulher, forçando o contato visual. — Meu irmão morreu em uma dessas mesas, Eliane. Eu vi o que fizeram. Eles não apenas matam; eles apagam nossa história para que a culpa pareça nossa. O que você sabe sobre a gravação?
Eliane tateou sob o travesseiro e retirou um cartão de memória, o plástico marcado por arranhões.
— O residente que gravou desapareceu há uma semana. O Dr. Arnaldo não sabe que esta cópia existe. O paciente estava consciente, Bia. Ele estava acordado durante a extração. Eles o mantiveram vivo até o último segundo para garantir a viabilidade do órgão para o filho do Deputado Viana.
O som de arrombamento ecoou no andar de baixo. A madeira da porta da pensão cedeu com um estalo seco. Gritos de ordem subiram as escadas.
— Leve — disse Eliane, empurrando o cartão para a mão de Bia. — Se você não sair, eles vão enterrar a nós duas.
Bia correu para a janela dos fundos. Atrás dela, a porta do quarto 204 foi derrubada. Dois vultos encorpados entraram, as lanternas cortando a penumbra com fachos agressivos.
— Rocha, pare agora! — o comando era frio, profissional.
Bia forçou a trava enferrujada da janela. O metal cedeu com um estalo alto. Ela se jogou para o beco, aterrissando sobre o lixo úmido. O impacto enviou uma onda de choque por seus joelhos, mas ela se levantou, cambaleando. Ela tinha o vídeo e a prova biológica. A caça havia terminado; a guerra pela verdade estava apenas começando.