O Arquivo Morto
O relógio digital na recepção do Santa Fé marcava 03:14. Setenta e uma horas e trinta e quatro minutos para o expurgo definitivo dos servidores. O tempo não era apenas um número; era um predador que encurralava Beatriz Rocha contra as paredes frias do hospital. Disfarçada sob o uniforme azul-marinho de um técnico de manutenção, ela sentia o peso do crachá clonado de 'Roberto S.' como uma sentença de morte pendurada no peito. O sistema biométrico, agora em alerta máximo, não era apenas uma trava de segurança; era um olho mecânico que a caçava desde que seu próprio acesso fora revogado. Cada passo pelos corredores desertos era uma aposta. Bia sabia que o sistema de vigilância, compartilhado com a Basílica do Padre Samuel, não tolerava anomalias. Se o verdadeiro Roberto estivesse em casa, o alarme dispararia antes que ela alcançasse o Arquivo Morto.
O ar no porão era denso, impregnado com o cheiro de papel envelhecido e o desinfetante hospitalar que tentava, sem sucesso, mascarar a podridão da negligência. Bia deslizou entre as estantes metálicas, ignorando o feixe de luz que varria o posto de enfermagem distante. Ela precisava do prontuário físico de Lucas Menezes; o único registro que o sistema digital não conseguiria corromper remotamente. Seus dedos, trêmulos, vasculharam a seção de pacientes não segurados até encontrar a pasta. O coração disparou quando ela a abriu. Suas esperanças, porém, foram esmagadas em segundos: o documento original havia sido substituído por uma cópia carbonada, limpa demais, com assinaturas forjadas e horários de medicação ajustados para encobrir o sacrifício cirúrgico. Eles haviam previsto a busca física.
— Malditos — sussurrou, a voz morrendo nas paredes de concreto. No verso da última folha, um pequeno pedaço de papel adesivo trazia uma caligrafia apressada de uma enfermeira demitida meses atrás: 'Eles não apagaram tudo. O original está no necrotério'.
A mudança de alvo foi instantânea. O necrotério era o lugar mais vigiado e, ironicamente, o mais frio. Bia moveu-se pelo labirinto de corredores, o cronômetro mental martelando 71:34:12. Ao chegar ao setor, o desafio era térmico: câmeras infravermelhas monitoravam qualquer fonte de calor. Sem hesitar, ela rompeu um saco de gelo do armazenamento de órgãos e espalhou o conteúdo pelo jaleco. O frio cortante atravessou sua pele, fazendo seus dentes baterem, mas, para os sensores, ela tornou-se apenas uma sombra na temperatura ambiente. Com movimentos precisos, ela alcançou a gaveta 402. O metal rangeu como um grito no silêncio sepulcral. Lá estava: a amostra de tecido, a prova biológica que ligava a morte de Lucas ao transplante do filho do Deputado Viana. Ao escondê-la no forro do jaleco, passos pesados ecoaram no corredor. A segurança de Arnaldo estava ali.
Bia não esperou para ser cercada. Ela mergulhou no túnel de resíduos, um duto claustrofóbico que cheirava a formol e desinfetante industrial. A fuga foi uma descida frenética pela escuridão, com o prontuário em papel apertado contra o peito. Ao emergir no beco lateral, a chuva fina de Santa Fé caía como um véu de chumbo. Ela correu até a pensão, mas, ao chegar, o pesadelo se materializou: a porta estava arrombada, o batente lascado por força bruta. O cheiro de tabaco barato — o mesmo dos seguranças da diretoria — impregnava o ar. Vozes graves vinham de dentro do seu quarto. Arnaldo não esperara o amanhecer. Bia recuou para a janela de serviço, o metal rangendo sob sua mão trêmula. Sem lugar para se esconder e com a prova física em mãos, ela saltou para o beco escuro, sabendo que a contagem regressiva agora não era apenas pelo hospital, mas por sua própria vida.