A Fé como Escudo
O cronômetro digital na recepção de emergência marcava 71:34:12. O número, um verde fosforescente que parecia sangrar na penumbra do saguão, era o batimento cardíaco da própria condenação de Beatriz Rocha. Ela estava trancada na ala administrativa, o crachá inútil, emitindo um bipe seco e avermelhado a cada tentativa frustrada de abrir a porta de vidro temperado.
Através da divisória, ela viu a equipe de manutenção. Eles empurravam uma maca carregada de equipamentos descartados, incluindo o monitor cardíaco onde ela havia escondido o pendrive com a prova do transplante ilegal. Se aquele monitor cruzasse a baia de carga, a prova seria incinerada ou enterrada em um depósito de descarte. Bia pressionou a palma das mãos contra o vidro, sentindo o frio do material contra a pele suada. O sistema de segurança, agora sob comando remoto da diretoria, travava as fechaduras eletromagnéticas. Ela estava isolada no núcleo do hospital, cercada por câmeras que, como descobrira, enviavam feeds em tempo real para a Basílica.
Passos ecoaram no corredor. Não eram os passos apressados de um enfermeiro, mas o caminhar pausado e autoritário do Padre Samuel. Ele parou diante da porta de vidro, sua batina negra absorvendo a luz fria do corredor. Bia não esperou. Usando uma ferramenta de emergência para abrir o painel de incêndio, ela disparou o alarme de exaustão. Uma cortina de fumaça sintética inundou o corredor, inutilizando os sensores ópticos por tempo suficiente para que ela escapasse pela escada de serviço.
O ar na Basílica de Santa Fé era denso, carregado com o cheiro adocicado de velas de cera de abelha que não conseguia mascarar o odor clínico que Bia carregava na pele. Ela entrou pelo transepto lateral, o único acesso sem sensores biométricos. O Padre Samuel já a esperava diante do altar, a silhueta recortada contra o vitral colorido.
— O desespero a trouxe ao lugar errado, Beatriz — a voz do Padre reverberou, desprovida de qualquer misticismo. — A casa de Deus não é um abrigo para quem tenta violar os segredos da administração.
Bia parou, o corpo tenso. — Eu vi o prontuário de Lucas Menezes. Sei que o transplante não foi uma questão de compatibilidade médica, mas de conveniência política. A igreja é a maior acionista do hospital, Padre. Vocês não estão salvando almas, estão lucrando com o sacrifício de pacientes descartáveis.
Samuel aproximou-se, limpando um cálice de prata com um pano de linho. — O hospital não é apenas uma estrutura de concreto. É a sustentação física da fé nesta cidade. As doações que mantêm este altar operante são as mesmas que garantem a tecnologia de ponta que você tanto protege. O transplante que vitimou Lucas não foi um erro; foi uma transação de capital social necessária para manter a paz desta comunidade.
Bia sentiu o estômago revirar. O Padre não negava o pacto; ele o justificava como um sacrifício ritualístico. — Lucas Menezes era um ser humano, não uma peça de reposição para o filho do Deputado Viana. O senhor está ciente do sangue que foi derramado para manter essa basílica de pé.
Samuel parou. O brilho benevolente em seus olhos foi substituído por uma frieza que a fez recuar. Ele deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal com uma calma aterrorizante. — Você fala de justiça como se ela tivesse valor de mercado nesta cidade. Quanto custa o seu silêncio, Beatriz? O preço da verdade é a sua vida ou apenas o seu conforto?
Bia não respondeu. Ela virou-se e correu para a saída lateral, sentindo o peso do olhar do Padre em suas costas. Ao retornar ao hospital, esgueirou-se até o necrotério, o único lugar onde o sistema de segurança parecia ter falhado em atualizar as permissões. Sobre uma das bandejas de aço, encontrou um bilhete deixado pela enfermeira que fora demitida na semana anterior: 'Eles não apagaram tudo. O original está no necrotério'. Bia olhou para a gaveta de número 402. A prova real não era digital; era biológica, e estava escondida onde ninguém ousava procurar.