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Chapter 4: Vigilância em Tempo Real

Bia Rocha tem seu acesso ao hospital bloqueado após descobrir a prova do transplante ilegal. Ela esconde o pendrive em um equipamento médico que está prestes a sair do prédio, mas é encurralada pelo Padre Samuel na escadaria, percebendo que a vigilância da igreja e do hospital é uma rede única e impenetrável.

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Vigilância em Tempo Real

O estalo da catraca eletrônica na Ala Nova não foi um clique, mas uma sentença. Bia Rocha forçou o braço contra a barra de ferro, mas o dispositivo permaneceu inerte, o visor exibindo um brilho vermelho estático. Seu crachá, a chave mestra que abria portas desde a UTI até o necrotério, agora era apenas um pedaço de plástico inútil. Atrás dela, o corredor de azulejos brancos parecia ter se esticado, ganhando uma profundidade claustrofóbica. No terminal de segurança, a contagem regressiva — 71:34:12 — pulsava em um tom cáustico. O relógio não era apenas uma referência técnica; era o cronômetro para a destruição da prova que ela escondia no bolso interno do blazer.

— Problemas, Beatriz? — A voz do Dr. Arnaldo Viana ecoou vinda do final do corredor. Ele caminhava com a calma de um predador que já cercou a presa, as mãos nos bolsos do jaleco impecavelmente branco.

Bia sentiu o peso do pendrive contra sua costela. Cada passo de Arnaldo era uma contagem decrescente para a sua própria carreira. Ela tentou deslizar o crachá novamente, mas o sistema emitiu um bipe de erro prolongado, um som que atraiu a atenção de dois seguranças que surgiram da esquina. Bia não esperou. Recuou para a penumbra da sala de esterilização. O ar ali era quente, carregado com o cheiro metálico de aço inoxidável e desinfetante forte. Ela não conseguiria sair pela porta principal; a segurança de Arnaldo já bloqueava o saguão e monitorava as câmeras com a precisão de quem caça um rato em um labirinto.

Com as mãos trêmulas, mas precisas, Bia abriu o compartimento traseiro de um monitor cardíaco de última geração que seria enviado para manutenção externa. O metal gelado do pendrive parecia queimar seus dedos enquanto ela o selava entre a bateria principal e a carcaça. Se ela fosse capturada, a prova estaria em trânsito, fora do alcance imediato de Arnaldo. Um clique metálico ressoou na porta. Ela mal teve tempo de se esconder atrás de uma coluna de equipamentos antes que uma enfermeira entrasse, empurrando o carrinho de carga com a displicência de quem não suspeitava estar transportando a ruína da administração hospitalar. Bia prendeu a respiração enquanto o equipamento era levado em direção ao caminhão de carga. A prova agora estava fora de seu alcance direto, mas em movimento.

Ela precisava sair. Bia correu para a escadaria de serviço, mas a trava magnética soou como um tiro. O painel eletrônico, antes verde, agora piscava um vermelho estático e agressivo. Bloqueado. Ela estava isolada no vão entre o segundo e o terceiro andar.

— O senhor não deveria estar aqui, Padre — Bia disse, a voz cortante enquanto se virava.

Padre Samuel estava parado um degrau abaixo, a batina negra contrastando com a claridade clínica do corredor. Ele não parecia um homem de fé, mas um gestor de crises. Seus olhos analisaram Bia com uma calma que a fez recuar.

— O silêncio é a virtude mais difícil de cultivar, Beatriz — o Padre começou, subindo um degrau com a lentidão calculada. — O Dr. Arnaldo está preocupado com o seu nervosismo. A cidade inteira depende da harmonia entre o que fazemos aqui e o que pregamos na Basílica. Você entende o peso dessa balança?

Bia sentiu o suor frio escorrer pelas costas. O relógio no terminal da diretoria, agora inacessível, continuava sua contagem implacável. Ela olhou para o Padre, a fachada de respeito institucional completamente rompida. Ele não negou o pacto; ele apenas esperava que ela nomeasse o preço de seu silêncio. Bia percebeu, com um horror gelado, que não havia saída física ou moral enquanto o sistema de vigilância compartilhado entre hospital e paróquia estivesse ativo. Ela estava presa, monitorada em tempo real, e a única coisa que a separava do expurgo total era o tempo que ela ainda conseguia comprar.

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