O Doador Inconveniente
O relógio digital sobre a mesa de triagem marcava 71:48:02. O tempo não era apenas uma medida; era o veneno que dissolvia as evidências de Lucas Menezes no servidor central. Bia Rocha sentia o peso do pendrive no bolso do jaleco como se fosse uma brasa. O Arquivo Morto, um labirinto de estantes metálicas e poeira, parecia encolher ao seu redor.
Ela acessou o terminal de compatibilidade genética. Seus dedos tremiam, mas a precisão técnica era sua única defesa. O sistema, desenhado para ser impenetrável, cedeu sob a pressão de uma chave mestra que ela não deveria possuir. A tela brilhou em azul frio: Protocolo de Transplante Prioritário - Cód. 99-B. O nome do receptor não era um estranho. Era o filho do Deputado Viana. A conexão era cirúrgica, fria e irrefutável. Lucas Menezes não morrera por complicações; ele fora mantido em suporte artificial apenas o tempo necessário para que seus órgãos fossem colhidos sob demanda.
Um som metálico ecoou no corredor. Bia desconectou o pendrive no exato segundo em que a porta do arquivo foi forçada. Valdir, o segurança, bloqueou a saída. Ele não precisou de palavras; seu rádio chiava com uma ordem direta da diretoria.
— Acompanhe-me, Dra. Rocha. O Dr. Arnaldo a aguarda na Ala Nova.
Bia caminhou, sentindo o olhar de Valdir como uma coleira. Ao chegarem ao átrio, o perfume de incenso da basílica misturava-se ao cheiro de antisséptico do hospital. Padre Samuel estava lá, abençoando a nova ala, sua presença servindo como o selo de aprovação moral para o que acontecia atrás das paredes de vidro. Arnaldo Viana observava tudo com um sorriso que não alcançava os olhos.
— Padre — Bia interrompeu, sua voz cortando o murmúrio das preces. — O prontuário de Lucas Menezes foi forjado. Ele foi sacrificado para salvar o filho do Deputado Viana. O senhor sabe disso.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Padre Samuel virou-se lentamente. Seus olhos, antes benevolentes, eram agora dois abismos de frieza institucional.
— Minha filha, a ordem desta cidade depende de sacrifícios que a sua visão limitada não pode compreender — disse o Padre, com uma voz que soava como uma sentença.
Arnaldo deu um passo à frente, ajustando o nó da gravata. — Beatriz, você está claramente sob estresse. Entregue seu crachá. Houve uma inconsistência no seu login. Por precaução, seus privilégios estão suspensos até que a auditoria interna seja concluída.
Bia recuou, mas o som da trava eletrônica da porta principal ecoou pelo corredor. Ela tentou passar o crachá no leitor. A luz vermelha piscou, negando sua saída. Ela estava trancada no coração da máquina. Com o pendrive no bolso e o relógio avançando para 71:35:00, ela percebeu que o hospital não a deixaria sair. O crime tinha um rosto poderoso, e ela acabara de se tornar a próxima peça a ser removida do tabuleiro.