O Preço da Curiosidade
O alerta vermelho no monitor da Sala de Auditoria não era um aviso de sistema; era uma sentença de morte. Beatriz Rocha sentiu o suor frio escorrer pela nuca enquanto o cursor piscava, impiedoso, sobre o log de acesso que ela acabara de manipular. O sistema de expurgo de 72 horas não estava apenas apagando dados: ele estava mapeando a intrusão em tempo real.
— Beatriz — a voz do Dr. Arnaldo Viana soou pelo alto-falante embutido, calma, autoritária, carregada de uma familiaridade que ela agora reconhecia como predatória. — Sei que você está aí. Sei exatamente o que você baixou.
O coração de Bia martelou contra as costelas. O pendrive, contendo a prova irrefutável de que Lucas Menezes fora sacrificado para que o filho do Deputado Viana recebesse o transplante, pesava no bolso de seu jaleco como uma brasa. O sistema de segurança, projetado para proteger a simbiose entre o hospital e a igreja, selou as portas magnéticas. Ela estava presa no quarto andar. Sem hesitar, ela arrancou o dispositivo e o empurrou para dentro do dispensador de luvas cirúrgicas, escondendo-o sob uma caixa de látex. Segundos depois, a trava magnética cedeu com um estalo metálico seco. A porta se abriu para o corredor vazio.
Ela saiu, mas não foi longe. O Dr. Arnaldo Viana a aguardava a poucos metros, os braços cruzados, observando o relógio digital na parede: 71:48:02.
— Relatórios são importantes, Beatriz. Mas a exaustão é uma péssima conselheira — ele disse, gesticulando para sua sala. — Vamos tomar um café. Precisamos discutir o futuro da sua carreira nesta instituição.
Dentro do escritório, o ambiente era abafado, carregado com o cheiro de café expresso e incenso. Arnaldo não a atacou; ele a desnudou. Ele mencionou Lucas Menezes com uma leveza que fez o estômago de Bia revirar, testando sua reação com a precisão de um cirurgião removendo um tumor. Ele sabia que ela tinha a prova, mas ainda não sabia onde ela estava. Era um jogo de espionagem onde cada palavra era um passo num campo minado.
Ao sair da diretoria, Bia tentou retornar ao dispensador de luvas, mas o hospital mudara. As câmeras de reconhecimento facial, antes estáticas, agora giravam com um zumbido mecânico, cobrindo os antigos pontos cegos. Um segurança da Basílica, homem de confiança do Padre Samuel, patrulhava a área. Bia percebeu a verdade terrível: o hospital e a igreja compartilhavam o mesmo sistema de vigilância. Eles não estavam apenas protegendo um segredo médico; estavam protegendo um pacto de poder que envolvia as figuras mais influentes da cidade.
Ela recuperou o pendrive em um movimento rápido, misturando-se à sombra de um carrinho de suprimentos, mas o sistema de segurança central disparou um aviso em seu tablet: Elemento de Risco Identificado.
Bia correu para o Arquivo Morto, o único lugar onde os terminais ainda operavam em redes isoladas. Ela conectou o dispositivo, esperando extrair a confirmação final. A tela brilhou, revelando a conexão direta entre o doador sacrificado e o filho do Deputado Viana. O crime tinha um rosto, um nome e um peso político que a cidade inteira se recusava a ver.
Antes que ela pudesse copiar o arquivo para a nuvem, a tela apagou. O silêncio no arquivo foi quebrado por passos lentos e ritmados. Bia se virou, o pendrive apertado na mão, e encontrou Arnaldo na penumbra, bloqueando a única saída.
— Beatriz — ele chamou, a voz ecoando pelo corredor, desprovida de qualquer máscara de benevolência. Ele já sabia que ela tinha a prova. E, pelo brilho frio em seus olhos, ela compreendeu que o relógio de 72 horas não era para o hospital. Era para ela.