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Chapter 1: O Erro de 72 Horas

Bia Rocha descobre uma alteração letal no prontuário de um paciente peregrino e percebe que o sistema de 'expurgo' do hospital é, na verdade, uma ferramenta de encobrimento de negligência deliberada para favorecer um transplante político. Ela consegue baixar a prova, mas o sistema a bloqueia e o Dr. Arnaldo Viana a confronta imediatamente, estabelecendo o relógio de 72 horas e o risco de vida da protagonista.

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O Erro de 72 Horas

O cursor piscava no terminal como um batimento cardíaco em taquicardia. Beatriz Rocha ajustou os óculos, sentindo o ar condicionado da auditoria, gelado e estéril, secar suas córneas. À sua frente, o prontuário digital de Lucas Menezes, 19 anos, peregrino, morto por choque anafilático às 04:12 da manhã. A causa parecia técnica, inquestionável — exceto pelo registro de dosagem de contraste injetado dez minutos antes do óbito. O volume não era terapêutico; era uma sentença.

Bia clicou no ícone de histórico de administração. O sistema respondeu com uma janela cinza: Acesso restrito. Autorização do Diretor Clínico necessária.

— O que você está escondendo, Arnaldo? — sussurrou ela.

Ela digitou seu código de auditora sênior, a chave mestra que lhe dera acesso a quase tudo no Hospital de Peregrinação. O sistema processou a solicitação por longos segundos. Em vez de abrir o log, um bipe agudo cortou o silêncio da sala. Uma barra de progresso surgiu no topo da tela: Iniciando expurgo automático de servidor. Otimização de dados: 72 horas.

Bia sentiu o estômago revirar. O sistema de 'autolimpeza' não era rotina; era uma ferramenta de apagamento seletivo. O prontuário não estava sendo otimizado; estava sendo editado em tempo real. O cronômetro, agora visível no canto superior, marcava: 71:59:59. Não era uma metáfora. Era uma guilhotina digital programada para apagar qualquer rastro de erro médico antes que as famílias dos peregrinos pudessem processar o luto. A reputação do hospital, o pacto de silêncio com a basílica, tudo dependia daquela limpeza.

Suas mãos tremiam. O Protocolo de Segurança 4-B proibia o acesso de auditores aos prontuários de óbitos nas primeiras 24 horas, mas o erro que ela encontrara era uma alteração cirúrgica. Ela inseriu o pendrive pessoal na porta USB. O sistema travou antes de reconhecer o dispositivo não autorizado. Um alerta âmbar surgiu no rodapé: Acesso de Auditoria Nível 1 detectado. Rastreamento de IP ativado.

— Vamos, droga — ela sibilou.

Enquanto os dados eram copiados, ela acessou a aba de histórico de transplantes vinculada ao prontuário do falecido. O sangue de Bia gelou. O paciente era o doador de órgãos compatível com o filho do Deputado Viana. A negligência não fora acidental; fora uma priorização de recursos. O jovem morrera para que outro pudesse viver.

O download terminou com um clique metálico. Ao retirar o hardware, um estalo reverberou pelo corredor. A porta de segurança selou-se com um baque surdo. O leitor de cartão emitiu uma luz vermelha. O sistema a identificara. A obediência cega aos protocolos que ela cultivara para se manter invisível havia acabado de se estilhaçar.

O interfone da parede ganhou vida com um chiado estático. A voz do Dr. Arnaldo Viana, calma e cortante como um bisturi, preencheu a sala:

— Beatriz, o prontuário que você baixou não é um erro do sistema. É um registro necessário para a manutenção da nossa ordem. Devolva o pendrive agora, ou o próximo registro a ser expurgado será o seu.

Bia olhou para a porta trancada, depois para o pendrive em sua mão. O relógio no terminal marcava 71:58:12. Ela não era mais uma auditora; era um alvo.

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