O Jantar dos Traidores
O salão do Hotel Imperial não era apenas um espaço de eventos; era um tribunal de etiqueta onde a falência de Beatriz Alencar já havia sido sentenciada. O ar, pesado com o perfume caro e o zumbido de conversas contidas, parecia vibrar com a expectativa de sua queda. Beatriz caminhava pelo mármore, a postura impecável escondendo a exaustão de quem lutava contra um conselho corporativo que já a considerava descartável.
Arthur Vane, seguindo-a a meio passo, observava o tabuleiro. Para a elite ali presente, ele era o "genro invisível", o homem que carregava a pasta de documentos. Para ele, cada convidado era um arquivo em seu tablet, uma peça de xadrez pronta para ser removida.
Ricardo, o maior acionista da Alencar Mineração, interceptou-os. Ele não se deu ao trabalho de esconder o desdém.
— Beatriz, querida — disse ele, a voz projetada para que os abutres ao redor ouvissem. — O buffet de demissões é no andar de baixo. Por que insiste em fingir que a Alencar ainda respira? O mercado já fechou as portas para você.
Beatriz travou, a mandíbula rígida. Antes que ela pudesse formular uma resposta defensiva, Arthur interveio. Ele não elevou o tom; ele apenas invadiu o espaço pessoal de Ricardo, ajustando a abotoadura do terno do investidor com uma precisão cirúrgica que fez o homem recuar um passo, o sorriso morrendo em seus lábios.
— Ricardo — a voz de Arthur era um sussurro gélido, carregado de uma autoridade que silenciou o círculo próximo. — O excesso de confiança é uma falha grave em balanços financeiros. Especialmente quando o seu, especificamente, está sendo auditado pelo Ministério Público neste exato segundo. O relatório das suas contas offshore chegou à corregedoria há dez minutos. Sugiro que verifique seu e-mail antes de falar sobre o que respira ou não.
Ricardo empalideceu, a taça de cristal tremendo em sua mão. Arthur não esperou por uma réplica; ele guiou Beatriz para longe, deixando o investidor estático, cercado por olhares de dúvida que rapidamente se transformaram em desconfiança.
No terraço privativo, longe dos salões, a conspiração era palpável. Através de um sistema de escuta que Arthur instalara na rede do hotel, a voz de Roberto, tio de Beatriz, ecoava em um diálogo frenético com um emissário de Marcelo Rocha.
— A assinatura dela é o único empecilho — a voz de Roberto sibilava. — Se não entregarmos a divisão de mineração até o amanhecer, o consórcio superior nos aniquila. Marcelo quer sangue, mas eu quero os dividendos.
Arthur entrou no terraço. Ao ver o genro, Roberto tentou recuperar a postura, mas o tremor em suas mãos o traiu. Arthur não precisou de ameaças. Ele exibiu o tablet, onde o registro das transações ilegais de Roberto dos últimos cinco anos brilhava como uma sentença de morte. Com um comando simples, Arthur bloqueou a conta offshore que financiava a traição, deixando o tio de Beatriz sem recursos e sem aliados.
O clímax da noite ocorreu no centro do salão. As portas duplas se abriram e Marcelo Rocha entrou, a ruína pública estampada em seu rosto. Ele não era mais o predador; era um homem em colapso total.
— Fraude! — ele gritou, apontando para Beatriz. — Ela é uma farsa, uma herdeira que se esconde atrás de documentos falsificados!
Beatriz sentiu o peso do olhar da elite, mas antes que Marcelo pudesse avançar, Arthur surgiu como um muro intransponível. Ele projetou no telão central do salão o extrato bancário de Marcelo, mostrando a falência total de suas operações. A elite assistiu, horrorizada, enquanto o nome de Marcelo Rocha era reduzido a um verbete de escândalo. Sem segurança e sem dinheiro, o outrora magnata foi retirado do salão como um pária.
Na manhã seguinte, na sala de reuniões da Alencar Mineração, os diretores traidores tentaram organizar uma votação para a destituição de Beatriz. Arthur entrou na sala, depositando um último arquivo sobre a mesa de mogno: a prova do conluio enviada ao Ministério Público.
— A diretoria será purgada — Arthur declarou, sua voz ecoando contra as paredes. — E a partir de agora, o destino desta empresa não é ditado por traidores, mas por quem detém a verdade.
Beatriz olhou para Arthur, vendo nele, pela primeira vez, não o homem que ela tentava proteger, mas o Rei Dragão que rege o destino daquela cidade. A diretoria, derrotada, baixou a cabeça, aceitando o fim de sua era, enquanto o martelo da história estava pronto para bater no novo leilão que selaria, de vez, a falência de Marcelo.