Sombras na Metrópole
O salão do leilão de jade, antes um santuário de prestígio, agora era um aquário de vidro quebrado. No telão central, os logs de lances fantasmas — a assinatura digital de Marcelo Rocha — brilhavam como uma sentença de morte. Marcelo, o magnata que até trinta minutos atrás ditava o ritmo da cidade, caminhava entre seus investidores com a face cinzenta. Ele tentou segurar o braço de um acionista, mas o homem se esquivou, tratando-o como um leproso.
— É um erro de sistema! Um ataque externo! — a voz de Marcelo, antes impositiva, falhou.
Arthur Vane observava tudo de um canto mal iluminado. Ele não precisava de aplausos; a prova que plantara no sistema já havia executado o serviço. A poucos metros, Beatriz Alencar mantinha os dedos cravados na mesa de mogno. Ao encontrar o olhar de Arthur, o choque em seus olhos deu lugar a uma compreensão perigosa. O "genro invisível" havia desaparecido; em seu lugar, estava o arquiteto da ruína de Marcelo. Arthur virou-se e saiu, deixando o magnata gritando para uma sala que já começava a esvaziar.
Horas depois, nas Docas de Jade, o ar era pesado, impregnado de maresia e óleo diesel. Arthur caminhava com passos calculados, seus sapatos polidos contrastando com o lodo do cais. Ele sabia que a humilhação pública de Marcelo exigiria uma retaliação primitiva. Três sombras se destacaram atrás de um carregamento de pedras brutas. Eram homens grandes, com o semblante bruto de quem resolve problemas através da força física.
— Você deveria ter ficado no seu lugar, genro de luxo — disse o líder, um homem com uma cicatriz na sobrancelha, girando um bastão de aço. — O patrão quer que você aprenda que alguns arquivos nunca deveriam ter sido abertos.
Arthur não hesitou. Quando o primeiro capanga avançou, ele inclinou o tronco milimetricamente, deixando o aço rasgar o ar. Com um movimento fluido, girou sobre o próprio eixo, desferindo um golpe seco na têmpora do agressor. O homem caiu como uma estaca. Os outros dois hesitaram, o instinto de predador sendo substituído por uma dúvida atroz. Em segundos, o confronto estava encerrado. O líder jazia no chão, quebrado.
Arthur forçou o celular contra o ouvido do mercenário. A voz de Marcelo Rocha ecoou pelo alto-falante.
— Já terminou o serviço? Traga a cabeça dele ou não ouse aparecer aqui.
— Marcelo. O seu cachorro não vai voltar — a voz de Arthur era desprovida de emoção, carregada de uma autoridade que parecia emanar do próprio solo. — E o seu próximo movimento já foi previsto.
Arthur conectou o dispositivo do mercenário ao seu sistema de rastreamento. Ao desligar, ele sabia: Marcelo Rocha não estava apenas perdendo dinheiro; sua existência na elite da cidade estava sendo apagada. De volta à sua base, Arthur observava a tela principal, onde os nomes dos conselheiros da Alencar Mineração piscavam em vermelho. Ele deslizou o dedo sobre o teclado, selando o arquivo final: um relatório detalhado sobre as contas offshore usadas para drenar o capital da mineradora. Com um comando, o documento foi enviado diretamente para o e-mail privado de cada membro do conselho e para a corregedoria do estado.
— O jogo mudou, Marcelo — sussurrou Arthur.
O telefone vibrou com um alerta: os mercenários haviam sido contidos, mas a mensagem de aviso deixada no distrito industrial confirmava que a elite, finalmente, começava a tremer. Arthur olhou para o horizonte da metrópole, pronto para o movimento final contra a diretoria, sabendo que, na manhã seguinte, o império de Marcelo estaria em chamas.