O Falso Aliado
O ar no escritório da diretoria do Hospital Alencar não era apenas condicionado; era estéril, pesado com o cheiro de antisséptico e o pânico silencioso de quem sabe que o chão está cedendo. Dr. Silas, o homem que deveria comandar aquela instituição, tremia enquanto tentava organizar prontuários que não faziam sentido. O tique-taque do relógio de parede não marcava horas, mas a contagem regressiva para sua ruína.
Arthur Viana não precisou de interrogatórios. Ele apenas deslizou um tablet sobre a mesa de mogno. A tela exibia, em tempo real, a drenagem sistemática dos fundos do hospital para contas offshore vinculadas ao Conselho Superior.
— O Conselho não perdoa erros, Silas. Mas você comete um maior ao esconder a verdade de quem detém as chaves do seu futuro — a voz de Arthur era um bisturi, precisa e fria.
Silas empalideceu, o suor frio brotando em sua testa. Ele olhou para a porta, buscando uma saída que não existia; Arthur havia isolado o andar, transformando a rede do hospital em uma fortaleza sob seu controle absoluto.
— Eu não tenho escolha! — Silas explodiu, a voz embargada. — Eles não querem apenas o dinheiro. Eles entraram na minha casa. Minha esposa, meu filho... eles são a garantia de que eu entregarei os registros das contas privadas. Se eu falhar, eles não vão apenas me destruir. Eles vão apagar minha família da existência.
Arthur não sentiu pena. Sentiu a frieza do estrategista que identifica um peão sacrificado. O pânico de Silas não era uma fraqueza a ser desprezada, mas uma coordenada a ser explorada. Ele precisava limpar o tabuleiro, e o Conselho acabara de lhe dar o motivo para a guerra total.
Arthur deixou o escritório e caminhou até a sala de servidores. O zumbido dos processadores era o único som. Ele observou o monitor principal: uma transferência de dados não autorizada estava em curso. O Conselho tentava colher os restos do hospital.
— Eles sabem que você está aqui, Silas — disse Arthur, sem desviar os olhos das linhas de código. Ele digitou um comando de override, isolando o nó de transmissão, mas deixando uma trilha falsa aberta, uma isca digital para que o traidor dentro do hospital acreditasse que a exfiltração continuava.
Minutos depois, um técnico de TI — um dos protegidos de Beatriz Alencar — tentou forçar a entrada com um dispositivo de pulso eletromagnético. Arthur o interceptou antes que ele tocasse no console. O confronto foi breve: Arthur imobilizou o rapaz com uma técnica de contenção que não permitia margem para resistência. No dispositivo do traidor, Arthur encontrou a localização exata do cativeiro.
Arthur desceu para a garagem subterrânea. O cheiro de borracha queimada e óleo era o oposto do ambiente estéril do hospital. Silas o seguia, tropeçando.
— Arthur, por favor — implorou Silas. — Se você for até lá, eles vão matar todos nós.
Arthur parou diante de um SUV blindado e, pela primeira vez, permitiu que Silas visse o que estava sob a máscara do homem comum. Não havia hesitação, apenas o brilho frio de um Dragão que recuperara sua soberania. Ele abriu o compartimento secreto do veículo, revelando um arsenal de recursos táticos e documentos de autoridade que provavam que ele não estava apenas lutando por um hospital, mas por uma linhagem que o Conselho tentara enterrar.
— Você acha que cheguei até aqui jogando pelas regras deles, Silas? — Arthur entrou no veículo, o motor rugindo como um aviso para a cidade lá fora. — O tempo para eles acabou. O meu começou agora.
Enquanto o carro disparava em direção ao submundo de São Paulo, o silêncio de Arthur era o prelúdio da tempestade. A família de Silas estava a minutos de distância, e os capangas do Conselho não tinham ideia de que o homem que se aproximava não era um administrador, mas o próprio pesadelo que eles juraram ter banido para sempre.