Dívidas de Sangue
O escritório de Beatriz Alencar, no topo do Hospital Alencar, não cheirava mais a luxo. O ar estava pesado, saturado pelo ozônio dos servidores que Arthur Viana forçara a processar uma liquidação em massa. Arthur, sentado na cadeira de couro que antes pertencia à rainha dos leilões, observava o monitor principal. A linha vermelha do conglomerado do Conselho Superior não apenas caía; ela se desintegrava.
Dr. Silas, o diretor clínico, estava encostado na porta, o rosto cinzento. Suas mãos tremiam tanto que ele precisou segurar o batente para não cair.
— Você não entende, Arthur — a voz de Silas era um sussurro rouco. — Eles não são como a Beatriz. Se o Conselho descobrir que você usou o override administrativo para manipular o mercado, não haverá um buraco nesta cidade onde você possa se esconder. Eles possuem juízes, delegados, assassinos...
Arthur não desviou o olhar. Seus dedos dançavam sobre o teclado, disparando ordens de venda automatizadas. Cada clique era uma sentença. O pânico na bolsa não era um acidente; era uma execução cirúrgica.
— O Conselho já sabe que estou aqui, Silas — Arthur respondeu, a voz calma, cortante. — E eles sabem que o seu silêncio é a única coisa que os separa da ruína pública. O telefone privado na mesa vibrou. O magnata do Conselho, o homem que movia as peças da cidade, estava na linha. Arthur ignorou a chamada. Deixou o titã na sala de espera virtual enquanto o mercado engolia sua fortuna.
Minutos depois, o corredor VIP do hospital tornou-se o palco da capitulação. O Magnata do Conselho irrompeu pelo corredor, escoltado por dois seguranças, mas a autoridade de sua linhagem desmoronava a cada passo. Ele parou diante de Arthur, tentando projetar a sombra de sua influência sobre o homem que, para todos, ainda deveria ser um subalterno.
— Você tem ideia da bagunça que causou, Viana? — o Magnata rosnou. Sua voz, antes um trovão, agora soava oca.
Arthur tocou o tablet. Os painéis digitais do hospital piscaram em vermelho, um alarme silencioso para a elite que observava o colapso através de seus próprios dispositivos.
— A bagunça é apenas o começo da limpeza, senhor — Arthur disse, levantando-se. — Ou prefere que eu detalhe as transações das empresas de fachada vinculadas à Beatriz Alencar que o senhor autorizou há três anos? Aquelas que deixaram rastros digitais que acabei de tornar públicos para os acionistas agora mesmo.
O Magnata recuou, o rosto perdendo a cor. Ele percebeu, tarde demais, que Arthur não era apenas um zelador de legados, mas um jogador de nível superior que conhecia cada fenda na armadura de sua organização. A ameaça de exposição total transformou o predador em presa. O homem saiu do hospital em silêncio, derrotado pela própria ganância.
No isolamento da sala de arquivos, Silas desmoronou. Arthur, implacável, pressionou o médico sobre a estrutura oculta do Conselho.
— O magnata se foi, Silas. Mas a fundação ainda respira. Onde eles estão escondidos?
Silas levantou o olhar, o pânico em seus olhos era visceral.
— Você não entende, Viana… Não é sobre dinheiro. Eles não me deixam sair porque me possuem por completo. Minha família… eles os levaram. Estão sendo mantidos como garantia.
O ar na sala tornou-se rarefeito. Arthur percebeu que a guerra financeira, embora vitoriosa, era apenas a superfície. O Conselho Superior não lutava com ações; lutava com vidas. O mercado de ações despencou, consolidando a ruína financeira do magnata, mas o triunfo de Arthur foi substituído por uma urgência fria. O tempo estava acabando, e o próximo movimento exigiria muito mais do que algoritmos.