O Jantar dos Lobos
O ar no escritório da presidência do Hospital Alencar não cheirava mais a desinfetante barato, mas a mogno polido e ao medo frio de quem perdeu o chão. Arthur Viana, sentado na cadeira que antes pertencia à linhagem dos Alencar, observava o Dr. Silas. O diretor clínico, um homem cujas mãos costumavam ditar o destino de pacientes com a frieza de uma planilha, agora tremia. A pilha de rescisões sobre a mesa era sua sentença de morte social.
— Você não pode expurgar a diretoria inteira, Arthur. O Conselho Superior não tolera vácuos de poder — a voz de Silas era um sussurro rouco, quase uma súplica.
Arthur não desviou o olhar. Ele não estava apenas demitindo funcionários; estava apagando as impressões digitais de Beatriz Alencar de cada contrato e transação fantasma que sustentava o hospital.
— O Conselho não se importa com a ordem, Silas. Eles se importam com a lucratividade — Arthur rebateu, a voz desprovida de qualquer emoção. — E a sua gestão é um prejuízo. Assine. Se hesitar, a prova de que você desviou fundos para o consórcio de apostas da Zona Sul chegará à Polícia Federal antes que o sol se ponha.
Silas empalideceu. Arthur não blefava. Com a assinatura colhida, ele se levantou, deixando o médico em um estado de terror absoluto. O Hospital Alencar estava, pela primeira vez em anos, sob o comando de um Viana.
Horas depois, o Salão de Gala do Hotel Unique era um campo de batalha de sussurros. Arthur atravessou o foyer com a cadência de quem possuía o edifício. Seu terno italiano, guardado desde a queda de sua linhagem, era a armadura necessária para transformar o desprezo da elite em um silêncio tenso. Beatriz Alencar, encostada em um pilar de mármore, parecia um cadáver corporativo. O brilho de suas joias, antes símbolo de poder, agora parecia uma zombaria.
Ao ver Arthur, ela tentou endireitar a postura, os olhos injetados de ódio, mas o brilho de sua autoridade havia se apagado no leilão. Arthur não a olhou. Passou por ela como se fosse uma nota de rodapé deletada do sistema.
— Você não deveria estar aqui — sibilou ela, a voz fina. — O Conselho não perdoa intrusos.
Arthur parou. Sem dizer uma palavra, ele sacou seu tablet, acessando o portal administrativo que acabara de recuperar. Com um deslize de polegar, autorizou a transferência dos últimos ativos da empresa fantasma de Beatriz para um fundo de liquidação judicial. Em tempo real, o celular de Beatriz vibrou freneticamente. O rosto dela perdeu a cor ao ler a notificação: sua ruína financeira estava completa.
O silêncio no salão tornou-se opressivo. A elite, antes reverente a Beatriz, recuou. Foi então que a atmosfera mudou. As conversas cessaram não por respeito, mas por uma pressão física. No centro do recinto surgiu um homem de cabelos grisalhos e olhos que pareciam ler o saldo bancário de cada convidado. Era o magnata, o braço direito do Conselho Superior.
Arthur caminhou até o bar, pediu um whisky puro e, enquanto o barman servia, sentiu o olhar gélido do recém-chegado sobre si. O magnata caminhou até o terraço, e Arthur o seguiu, sabendo que aquele era o momento de forçar o verdadeiro poder a se revelar.
— Você tem coragem, Viana — o magnata murmurou no terraço, a voz baixa. — Derrubar Beatriz foi um erro estratégico. Você tocou em uma engrenagem que não foi feita para ser movida por alguém da sua estirpe.
Arthur não desviou o olhar. Ele observou a tela de seu smartphone, onde os gráficos de negociação das ações do magnata despencavam em tempo real, como um batimento cardíaco falhando em uma UTI. O ataque que o magnata preparava contra o Hospital Alencar havia sido interceptado e redirecionado para suas próprias contas.
O magnata parou de caminhar, o sorriso predatório desaparecendo. Seus olhos encontraram os de Arthur com um reconhecimento gélido. Ele finalmente entendeu: o homem que ele subestimara não era um funcionário, era um predador que acabara de desmantelar seu império. O mercado de ações despencava lá embaixo, e a ruína do magnata era apenas o começo.