O Preço da Lealdade
O mármore do saguão da Casa Alencar ainda vibrava com o eco dos saltos de Beatriz, um som que, para Arthur Valente, soava como a contagem regressiva para a falência social dela. Ele mantinha Mestre Elias firme pelo braço, sentindo o tremor do velho avaliador. A humilhação de Beatriz não fora apenas um espetáculo; fora a demolição de sua solvência. Contudo, o silêncio que se seguiu não era de respeito, mas de um perigo letal. Cinco homens de Otávio Alencar, ternos alinhados e olhares predatórios, bloquearam a saída de serviço com a precisão de uma falange.
— O documento, Arthur. Otávio não gosta de esperar — sibilou o líder, a mão repousando no coldre sob o paletó.
Elias soltou um suspiro trêmulo. Arthur, porém, não recuou. A submissão que a elite esperava dele evaporara, dando lugar a uma presença gélida.
— Diga ao seu mestre que ele se enganou sobre o endereço da entrega — respondeu Arthur, a voz desprovida de hesitação.
O líder avançou, mas Arthur fluiu. Com um movimento curto e preciso, desviou o pulso do agressor, usando o próprio impulso do homem para arremessá-lo contra a parede de gesso. O impacto ecoou como um disparo. Antes que o segundo pudesse reagir, Arthur girou, cravando o cotovelo na articulação do ombro do oponente. O corredor, antes uma armadilha, tornou-se o palco de sua superioridade. Em segundos, os cinco homens estavam caídos. Arthur não esperou para ver se se levantariam; ele retirou Elias do prédio, ciente de que a guerra havia deixado os salões de leilão para se tornar uma caçada física.
Mais tarde, no 'Café Histórico' do centro, o aroma de café torrado tentava disfarçar a tensão. Do lado de fora, a garoa lavava o asfalto, mas as sombras dos capangas de Otávio ainda pareciam espreitar na vitrine.
— Eles não vão parar, Arthur — Elias sussurrou, as mãos trêmulas ocultas sob a mesa. — O Cartel do Leste não lida com insolvência através de tribunais. Eles usam o silêncio permanente.
Arthur observou um sedã preto estacionar na esquina oposta.
— Deixe que venham. Se eles querem sangue, vão descobrir que o nome Valente é um contrato de dívida que eles não podem pagar.
Elias puxou um envelope selado do forro de seu sobretudo. — As escrituras ancestrais estão fragmentadas. A parte que falta, a que garante o controle sobre os ativos remanescentes da infraestrutura da cidade, está trancada em um cofre no Banco Central. Esta é a chave.
Arthur pegou a chave, sentindo o metal frio. O peso daquela peça era o peso da cidade. Ele não estava apenas recuperando um legado; estava preparando o golpe final contra a liquidez da família Alencar.
No escritório improvisado na Zona Leste, Arthur trabalhava contra o tempo. A tela exibia o fluxo de caixa das empresas de fachada dos Alencar, um labirinto de lavagem de dinheiro agora exposto.
— O Cartel está tentando bloquear os servidores da Bolsa — alertou Elias.
Arthur não desviou o olhar. Seus dedos moviam-se com precisão cirúrgica, injetando o código que forçava a transparência total dos ativos. Ele não estava apenas atacando os Alencar; estava cortando a linha de oxigênio que o Cartel usava para sustentar aquele império.
— Eles têm três minutos antes que o sistema de compensação processe a insolvência — disse Arthur. — Quando o martelo bater, Beatriz não terá um centavo.
Ele executou o upload. No monitor, o gráfico das ações Alencar, antes inflado, iniciou uma queda vertical. A ruína era irreversível.
Ao sair para encontrar um aliado na Avenida Paulista, Arthur foi interceptado por três SUVs pretas. Seis homens de elite desceram, bloqueando o fluxo. O líder, com uma cicatriz fina na sobrancelha, não perdeu tempo.
— O patriarca quer um acerto de contas. Elias já está sendo 'convidado' para uma conversa. Você vem por bem?
Arthur parou. O terno simples que vestia parecia deslocado diante da ostentação daquela equipe, mas, ao ajustar os punhos, sua aura de predador fez o líder recuar. Ele não gritou. Ele apenas avançou contra o primeiro homem, desarmando-o com uma fluidez que transformou a tentativa de sequestro em uma demonstração pública de domínio. Enquanto os agressores de elite caíam, um a um, sobre o asfalto paulistano, Arthur caminhou sobre eles, enviando uma mensagem clara: a caça havia mudado de lado. O próximo passo não seria apenas a ruína financeira; seria a tomada total do leilão exclusivo, onde ele drenaria o último suspiro de capital dos Alencar.