Sombras da Família Alencar
O silêncio que se abateu sobre o salão da Casa de Leilões Alencar não era de respeito, mas de colapso. O brilho artificial das luzes sobre o jade, antes símbolo de prestígio, agora revelava apenas a opacidade da fraude. Beatriz Alencar, com as mãos travadas sobre o martelo de marfim, viu sua autoridade se desfazer em tempo real. No telão, a análise espectrográfica da peça — uma estrutura sintética, tratada com resinas baratas — projetava a sentença de morte da sua reputação.
Arthur Valente, parado no centro do salão, era o único ponto de gravidade. Ele não precisou elevar a voz. O peso de sua presença, antes ignorada, agora era uma sentença.
— A escritura 402-B — a voz de Arthur cortou o ar, gélida e precisa. — O protocolo é inalienável. Como auditor nomeado pela linhagem proprietária, declaro todos os ativos deste leilão sob arresto imediato. O martelo não cairá para mais ninguém hoje.
Beatriz deu um passo à frente, o rosto desprovido de cor. — Você não tem esse direito, Valente! Isso é uma usurpação, um teatro de um falido!
— O teatro acabou, Beatriz — Arthur respondeu, caminhando até a mesa do leiloeiro. Ele não olhou para ela, focando apenas no documento selado que retirara do bolso interno do paletó. — A insolvência da sua casa não é um boato. É um fato registrado. Seus credores já estão a caminho. O leilão está encerrado.
Os seguranças, que antes bloqueavam o caminho de Arthur, recuaram. Eles não eram mercenários por convicção, mas por pagamento, e o dinheiro dos Alencar havia evaporado junto com a credibilidade da casa. O êxito de Arthur não foi uma explosão de raiva, mas uma cirurgia de precisão: ele havia removido a base de poder de Beatriz com uma única folha de papel.
Minutos depois, no escritório privativo, o ar cheirava a sândalo e desespero. Beatriz, sentada atrás de sua mesa de mogno, tentava inutilmente recompor a máscara de rainha. Arthur, impecável, observava os documentos espalhados: notificações de despejo, remessas ilegais e o contrato de financiamento assinado com o Cartel do Leste.
— Diga um valor — ela sussurrou, a voz trêmula. — O silêncio sobre a origem do jade, a retirada da escritura... eu posso te dar a gerência da filial sul. Podemos recomeçar.
Arthur inclinou a cabeça, um sorriso frio desenhando-se em seus lábios. — Você ainda não entendeu. Eu não voltei para recuperar o que me foi tirado. Eu voltei para auditar a sua existência. Quem é o seu financiador? Aquele que não tolera falhas e que agora vai cobrar o preço do seu fracasso?
Beatriz empalideceu, o lábio inferior tremendo. — Eles não vão deixar você sair vivo. O cartel não joga o seu jogo de escrituras. Eles jogam com sangue.
Arthur não esperou pela resposta. Ele já tinha o que precisava: a confirmação da conexão com o Cartel. Ao sair da Casa de Leilões, o estacionamento VIP exalava o cheiro de asfalto aquecido. Mestre Elias o esperava junto a um sedã discreto, o rosto marcado por uma palidez que denunciava o perigo iminente.
Antes que Arthur pudesse abrir a porta, o som de pneus cantando ecoou pelo recinto. Três SUVs pretas com vidros blindados bloquearam a saída, formando um semicírculo tático. O vidro da SUV central desceu, revelando a silhueta de Otávio Alencar, o patriarca. Ele não sorria. Sem proferir uma única palavra, Otávio sinalizou. Dois seguranças saltaram dos veículos. Em um movimento fluido, um deles agarrou Mestre Elias pelo colarinho, imobilizando-o contra o capô do carro, enquanto o cano frio de uma arma era pressionado diretamente contra a têmpora do velho mentor.