A Verdade como Moeda
O ar no apartamento de Léo era denso, saturado pelo cheiro de solda fria e pelo zumbido constante de servidores improvisados. Beatriz jogou o cartão de memória sobre a mesa de fórmica. O plástico, riscado e encardido, emitia um brilho intermitente — o pulsar de um rastreador de curto alcance.
— Siqueira não está apenas apagando o banco de dados, Léo. Ele está caçando cada um de nós que tocou no 402-B. — Ela pressionou a mão contra a costela, sentindo o latejar agudo da ferida. — Olhe a lista de expurgo. Seu nome está nela.
Léo, cujos dedos costumavam navegar pelo código com a arrogância de quem detinha o controle, parou. O pânico drenou o sangue de seu rosto, deixando-o com uma palidez cadavérica sob a luz azulada dos monitores. Ele digitou o comando de auditoria. O diretório de segurança interna se abriu, revelando a lista de "limpeza futura". Entre os nomes de médicos e enfermeiros já desaparecidos, o dele brilhava em vermelho.
— Eles não vão me pagar — sussurrou, a voz falhando. — Eles vão me descartar.
— Você é uma ponta solta em um sistema que não tolera erros. — Beatriz inclinou-se, a urgência queimando em seus olhos. — Temos 39 horas e 42 minutos até a purga total do Lázaro-9. Se não transmitirmos isso agora, o prontuário 402-B deixará de existir, e nós seremos apenas mais dois nomes em uma lista de acidentes hospitalares.
Léo encarou a placa de circuito, o ferro de solda tremendo em sua mão. — O bloqueio de satélite é absoluto. Siqueira isolou a cidade. Qualquer tentativa de upload por provedores locais será interceptada antes dos dez por cento. O firewall dele é uma muralha.
— E a rádio comunitária? — Beatriz perguntou. — Eles usam o link analógico de satélite. É o único canal que não passa pelo servidor central do Santa Fé.
Léo hesitou. — É suicídio técnico. Se eu abrir a porta de transmissão, o firewall de Siqueira vai nos localizar em segundos. A polícia municipal estará lá antes que o arquivo chegue à metade.
Beatriz não respondeu. Ela apenas pegou o casaco. A decisão já estava tomada.
Eles saíram para a noite. A cidade de peregrinação, geralmente silenciosa, vibrava com a presença das viaturas da polícia municipal. A cada esquina, Beatriz sentia o peso do cartão de memória no bolso, um sinal de rádio que gritava sua localização para o inimigo. Ao passarem por um beco estreito, um som de metal contra metal ecoou. Léo tropeçou, o ruído soando como um tiro no silêncio da madrugada. Beatriz parou, o coração martelando contra as costelas feridas. O cerco estava se fechando.
Sem hesitar, ela tirou o cartão de memória e o arremessou com força para o lado oposto, em direção a um beco escuro, atraindo a atenção das luzes giratórias que se aproximavam.
— Corre! — ela ordenou.
Eles alcançaram a Rádio Santa Fé, uma estrutura decadente que cheirava a mofo e eletrônicos obsoletos. Beatriz barricou a porta com uma cadeira de ferro enquanto Léo se jogava sobre o terminal principal. O relógio marcava 38 horas e 12 minutos.
— O sistema detectou o acesso — Léo gritou, a voz subindo uma oitava. — Eles estão rastreando o sinal. Se eu abrir o link para a rede estadual, vão saber exatamente onde estamos.
— Faça isso! — Beatriz respondeu, mantendo os olhos na porta.
Uma barra de progresso surgiu na tela: 15%... 20%... O estrondo da porta sendo arrombada ecoou pelo prédio. Um segurança surgiu pela janela, agarrando Léo pelo pescoço e jogando-o contra a parede. Beatriz hesitou, dividida entre intervir ou proteger o terminal. O segurança sacou a arma, enquanto a barra de progresso subia implacável: 95%... 98%... O metal da porta cedeu completamente sob o impacto de quatro homens armados.