O Cerco Fecha
O estalo seco de uma coronha contra a madeira da porta dos fundos não foi um aviso; foi uma sentença. Beatriz Viana, sentada à mesa da cozinha da Dra. Cecília, sentiu o ar da sala tornar-se rarefeito, como se o oxigênio estivesse sendo drenado por um sistema invisível. No pulso, o relógio digital piscava em um vermelho clínico: 41:12:00 para a purga total dos servidores do Santa Fé.
— Apague a luz — Cecília sussurrou, a mão calejada travando o braço de Beatriz. — Eles não estão aqui por uma paciente. Estão aqui pelo que você carrega no bolso.
Beatriz tateou o cartão de memória. A peça de plástico era a única prova física de que o Lázaro-9 não era um tratamento, mas um experimento de custo humano incalculável. Pelo vão da cortina, o brilho das lanternas da polícia municipal varria o jardim com precisão militar. Não havia sirenes. Siqueira operava com a discrição de um cirurgião removendo um tumor: sem alarde, sem deixar cicatrizes públicas.
— Eles estão fechando as saídas da cidade — Cecília continuou, a voz carregada de uma amargura que Beatriz reconheceu como o peso de anos de silêncio forçado. — Se você sair pela frente, a "perturbação da ordem" será o pretexto para o confisco. Ele não quer te prender, Beatriz. Ele quer que você desapareça antes que o prontuário 402-B chegue a qualquer servidor público.
Beatriz não respondeu. Saltou pela janela dos fundos, aterrissando na lama fria. O impacto enviou uma fisgada de dor pelo tornozelo, mas ela ignorou. A dor era um lembrete de que o tempo estava correndo contra sua integridade física.
Escondida no beco atrás da praça, Beatriz tentou o upload. O sinal do celular, antes estável, oscilou e morreu. Não foi uma falha técnica; foi um vazio absoluto. Ela tentou forçar uma conexão via satélite, mas a tela exibiu apenas uma mensagem fria: Acesso negado. Perímetro isolado.
Siqueira não estava apenas caçando-a; ele estava amputando a cidade.
Beatriz caminhou pela praça, o capuz da jaqueta escondendo o rosto. Em uma vitrine de eletrônicos, a imagem de Siqueira dominava as telas. O filantropo, o pilar da comunidade, falava com a voz mansa de quem dita o destino de um rebanho: “Beatriz Viana, ex-auditora, é uma criminosa perigosa. Ela subtraiu dados sigilosos que comprometem o tratamento de centenas de pacientes. A ordem é a nossa segurança.”
Ao seu redor, a atmosfera mudou. Onde antes havia a indolência de peregrinos, agora havia uma hostilidade palpável. Uma vizinha a reconheceu, o dedo apontado como uma arma. Beatriz empurrou-a, sentindo o peso do desprezo social. Ela não era mais a auditora respeitada; era um erro de sistema a ser corrigido.
No subsolo de uma oficina mecânica, o cheiro de graxa e óleo queimado era insuportável. Léo estava lá, os olhos injetados de medo.
— Você me prometeu uma saída — Beatriz sibilou, encostando-o contra a parede.
— O Siqueira desligou o backbone da cidade — Léo respondeu, a voz falhando. — Satélite, fibra, rádio. Tudo. Estamos em um aquário e ele está drenando a água. E tem mais… o cartão. Ele emite um sinal de curto alcance. Eles estão triangulando sua posição agora.
Beatriz sentiu o sangue gelar. O relógio marcava 40:00:00. Ela não estava apenas sem rede; estava sendo caçada por um sistema que a rastreava em tempo real. A próxima transmissão seria sua única chance, mas com Léo tremendo e a polícia fechando o cerco, ela percebeu que o tempo não estava apenas passando. Ele estava acabando.